A Falência do Transporte Rodoviário de Cargas no Brasil
Por Marco Antonio Oliveira Neves
25/09/2009
Nos próximos 5 anos testemunharemos o desaparecimento de diversas empresas de
transporte rodoviário de cargas no Brasil. Verdadeiros ícones do setor, que hoje
faturam entre R$ 100 milhões e R$ 1 bilhão anualmente, simplesmente
desaparecerão ou serão adquiridas por Operadores Logísticos norte-americanos,
europeus e asiáticos.
Estamos vivendo a terceira e decisiva etapa do processo de amadurecimento do
mercado de prestação de serviços de logística e transportes no Brasil.
A primeira etapa, a mais longa até então, transcorreu desde os primórdios do
transporte no Brasil nos anos 50, até a metade da década passada, mais
precisamente em 1995, quando as empresas, apoiadas em investimentos em ativos
operacionais, cresceram e ganharam a importância que têm hoje. Foi uma fase de
prosperidade e riqueza, e em alguns casos, de esbanjamento. Muitos dos atuais
líderes do setor cresceram dentro dessa realidade, e vem repetindo o mesmo
modelo de gestão do passado.
A segunda etapa iniciou em 1995, com o advento do conceito de logística
integrada nas empresas e que coincidiu com a estabilização da inflação no Brasil
e com uma desaceleração no ritmo de crescimento econômico, em comparação com as
décadas de 70 e 80. Esses três fatores criaram uma combinação “explosiva” no
tocante à gestão dos custos de transportes, forçando os Embarcadores a otimizar
os fretes pagos. A pressão das empresas encontrou “respaldo” no setor de
transporte, e os fretes despencaram radicalmente. A queda na receita foi
acompanhada por um aumento de custos fixos e variáveis, que reduziu
drasticamente os lucros. A chegada dos Operadores Logísticos internacionais e o
avanço do modal ferroviário em função dos investimentos realizadas pelas
concessionárias do setor, também contribuíram para a queda dos fretes, porém em
menor escala.
Esta segunda etapa, que durou 10 anos (portanto até 2005), foi o período em que
as Transportadoras deveriam ter se estruturado adequadamente, se preparando para
os desafios futuros, previstos nesta fase que estamos vivenciando. Margens de
lucratividade ao redor de 20%, anteriormente praticadas, deram lugar a margens
mínimas, de no máximo 5%, que inviabilizam um negócio que envolve o emprego de
capital intensivo.
Nesta nova fase, que deverá durar ao redor de 10 anos, ocorrerá um equilíbrio
natural entre oferta e demanda, independente de ações externas, à custa da
falência de centenas e talvez milhares de empresas de transporte de cargas.
Apesar das dificuldades, muitas empresas continuarão surgindo e desaparecendo,
repetindo o tradicional modelo de gestão, exclusivamente apoiado em ativos.
Vários são os motivos que levarão ao aumento da mortalidade das empresas de
transporte no Brasil. Envolvem causas relacionadas à falta de regulamentação do
setor, estradas ruins, forte sazonalidade de final de mês, concorrência
predatória, desunião no setor, representatividade dos autônomos na frota total,
desequilíbrio entre oferta e demanda, mas principalmente, pela incompetência na
gestão das empresas, decorrente de erros estratégicos e da falta de uma visão
integrada de pessoas, processos e tecnologia.
Ao final desta terceira etapa, prevista para terminar em 2015, restarão os
escombros de uma indústria muito mal tratada pelo setor público, pelos seus
usuários (Embarcadores), pelos sindicatos e também, pelos seus administradores.
Iniciar-se-á então uma nova era, onde as empresas de transporte terão a sua
identidade cultural e empresarial consolidadas, estando perfeitamente adaptadas
aos desafios do mercado, operando com a premissa básica de qualquer negócio, a
lucratividade.
Infelizmente poucos são os bons exemplos de gestão que presenciamos atualmente,
mas aos poucos o mercado começa a enxergá-los. Ainda há tempo de reverter o
processo de deterioração das empresas e provavelmente esta seja a última
oportunidade. O remédio é amargo, mas ainda existe salvação...
Marco Antonio Oliveira Neves é Diretor da Tigerlog Consultoria, Hunting e
Outplacement e Treinamento em Logística Ltda. marcoantonio@tigerlog.com.br -
www.tigerlog.com.br