Ferrovias e Contêineres
Por Milton Lourenço
25/09/2009
Estudo recente mostrou que de 1997 até 2008 o transporte de contêineres por
ferrovias, no Brasil, cresceu 75%, o que significa que a tendência é que cresça
cada vez mais. Pela frente, porém, há uma série de obstáculos a serem
ultrapassados: o principal deles é que o transporte rodoviário, apesar de todos
os inconvenientes que o cercam, ainda é o modal mais barato. E, afinal, é isso o
que conta, o que explica também por que 80% das cargas no País seguem por via
rodoviária.
Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, onde o porto de Houston está
ligado a 80% do território do país por malha ferroviária, o Brasil enfrenta
problemas estruturais que impedem o transporte ferroviário de crescer ao ritmo
que seria necessário para colocar o País em condições de igualdade com outras
nações continentais.
Construída na transição do século XIX para o XX, a uma época em que as
necessidades econômicas eram outras, a malha ferroviária brasileira sofre de
limitações não só em razão de seu pequeno alcance, levando-se em conta a
extensão do território nacional, como em função de outros entraves, como o
direito de passagem entre concessionárias e diferenças de bitola. Sem contar as
dificuldades para cruzar uma cidade como São Paulo, que funciona como o eixo do
transporte de carga do País.
Ao contrário do que ocorre na Europa, quem viaja pelo interior do Brasil sabe
que ainda é raro ver-se uma grande composição arrastando um fila quase
interminável de contêineres. E não deveria ser assim porque, em tese, o
transporte ferroviário afigura-se em todo o mundo como o mais barato entre os
modais. Afinal, um vagão carrega o equivalente a três caminhões de 35 toneladas
cada. Além disso, é um modal que proporciona maior segurança, minimiza o impacto
ambiental e reduz sensivelmente custos logísticos, quando perfeitamente
integrado a um conceito de intermodalidade.
Isso não se dá hoje no Brasil exatamente porque os terminais intermodais que
existem oferecem ainda pouco espaço para a opção ferroviária. E não há, por
parte do governo, maiores incentivos para a construção pela iniciativa privada
de novos terminais intermodais. Além disso, os trens oferecidos pelas
concessionárias são de baixa qualidade, andam a velocidade de tartaruga,
oferecem as maiores dificuldades no momento de transbordo e não apresentam
maiores alternativas de disponibilidade de rotas e vagões. Portanto, num
contexto como esse, infelizmente, não há como pensar em intermodalidade.
Mas nem tudo deve ser olhado com pessimismo. Dados divulgados pela
concessionária América Latina Logística (ALL) mostram que o volume de
contêineres na empresa vem crescendo desde 2006 e que a perspectiva é que a
evolução nesse segmento seja de 86% até o final de 2009, o que a leva a estimar
que, dentro de dois ou três anos, esse segmento possa representar de 10 a 15% do
total transportado pela concessionária. Hoje, esse volume não chega a 1%.
Naturalmente, tudo vai melhorar quando estiverem concluídas as obras do Rodoanel
e do Ferroanel, que tornarão a travessia da cidade de São Paulo uma missão menos
espinhosa. Com a conclusão dessas obras fundamentais, acredita-se que a capital
paulista disporá de centros logísticos em pontos estratégicos para fazer a
distribuição para os municípios do Interior e dos demais Estados.
A conclusão total do Rodoanel está prevista para 2014, mas, a rigor, esta data
não passa de mero exercício de futurologia. De concreto, o que se tem é que
ainda em 2009 o Trecho Sul do Rodoanel estará aberto ao tráfego (em junho de
2009, quase 90% do traçado estavam prontos). Já o Trecho Sul do Ferroanel tem
prazo para começar a operar até final de 2010. Este tramo passará pelo Grande
ABC e terá uma ligação direta em Rio Grande da Serra, fazendo com que os trens
de carga com destino ao porto de Santos deixem de passar pela linha que corta a
região.
Até lá, será preciso muita paciência para cruzar a cidade de São Paulo, em razão
de fatores como rodízio municipal de veículos, restrições de vias, horários para
circulação, engarrafamentos e até as imprevistas inundações de avenidas em
épocas de chuvas. Tudo isso representa custos e atraso nos prazos de entrega da
carga. Haja paciência.
Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do
Centro de Logística de Exportação (Celex), de São Paulo-SP.
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br