Fretes Marítimos: Falta Bom Senso
Por Mauro Lourenço Dias
28/10/2009
Depois de uma fase em queda, os fretes cobrados pelos armadores de contêineres
passaram a sofrer reajustes tão intensos que já começam a extrapolar as raias do
bom senso. Como conseqüência da menor capacidade disponível nos navios, em razão
de cortes de espaço feitos pelas companhias marítimas a fim de se adequarem à
queda dos volumes motivada pela crise global, as principais linhas anunciaram,
nos últimos dias, reajustes em praticamente todos os trades.
Como justificativa, os armadores alegam que foram obrigados a tomar essas
medidas para fazer frente à crise e tentar arcar com os valores do transporte.
Com isso, os armadores estão praticando aumentos no bunker e aplicando taxas de
GRI e Peak Season. No comércio entre a Ásia e os Estados Unidos, responsável
pela maior movimento comercial do mundo, os reajustes têm sido freqüentes, em
função da diminuição da frota disponível. Com pouco espaço em disputa, os
serviços passam a ganhar valores estratosféricos, já que os volumes começam a
ficar acima da capacidade de espaço em oferta.
Tanto MSC como Maersk e Evergreen elevaram as taxas para as cargas do
Mediterrâneo, da mesma maneira que MOL e NYK. A MSC anunciou aumento de US$ 200
por TEUs (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés) nos serviços entre o
Sudeste asiático e o Noroeste da Europa. As linhas japonesas também aumentaram
as tarifas do Oeste da Ásia e da Índia para o Mediterrâneo e Norte da Europa.
Transportadoras marítimas, incluindo Maersk, CMA CGM e Hapag-Lloyd, começaram a
aplicar aumentos de US$ 200 até US$ 500 por TEU este mês.
Em setembro, a Maersk, o maior armador do mundo, decidiu empreender a
reestruturação nos seus serviços intra-Américas. Os maiores incrementos foram
verificados nas rotas entre a América do Norte e a Costa Oeste da América do
Sul, tanto na exportação como na importação -- US$ 300 para um TEU e US$ 600
para um FEU (unidade equivalente a um contêiner de 40 pés).
Os armadores argumentam que os níveis de movimentação ainda estão distantes dos
patamares da época pré-crise, alegando que os fretes, na comparação com o ano
passado, ainda estão de 20 a 30% mais baixos. Mas esse é só um lado da moeda
porque antes não havia sequer disputa por espaço em embarcações. Hoje, se ainda
não existe um problema generalizado de falta de espaço para a exportação em
direção à Ásia, essa é uma hipótese a se colocar na mesa, como resultado de uma
combinação explosiva que pode desorganizar o mercado: a redução de frotas e, em
conseqüência, de espaço nas embarcações pode coincidir com o reaquecimento do
comércio global.
No Brasil, o reaquecimento da economia e a valorização do real frente ao dólar
fizeram com que as importações, sobretudo de bens duráveis e não-duráveis,
voltassem a crescer. Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), a melhora
está sendo liderada pelos países emergentes, em especial as nações do continente
asiático, com a China à frente, hoje a maior nação exportadora do mundo,
superando Alemanha e os Estados Unidos. Mas aqui também se pode incluir o Brasil
e os demais países do Bric (Rússia e Índia).
Esse reaquecimento da economia, obviamente, começa a se refletir no transporte
marítimo, o principal termômetro das trocas internacionais. A expectativa que se
tem é que, em 2010, o comércio internacional volte aos patamares dos volumes do
começo de 2008, mas, para isso, não se pode esperar que os fretes marítimos, a
pretexto de recuperação de perdas passadas, venham a alcançar preços
exorbitantes.
Nesse caso, os números que a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB)
projeta para este ano – de US$ 124,8 bilhões para importações (queda de 28%) e
US$ 146,2 bilhões para exportações (queda de 26,1%), com saldo de US$ 21,4
bilhões – teriam de ser redimensionados para baixo. Portanto, o momento exige
bom senso também por parte dos armadores.
Mauro Lourenço Dias é vice-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São
Paulo-SP, e professor de pós-graduação em Transportes e Logística no
Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br