Um Futuro Bem Planejado
Por Milton Lourenço
25/09/2009
Não são poucos os exemplos de obras que, depois de concluídas, em poucos anos,
mostraram-se mal planejadas. Por isso, uma das maiores preocupações que o
administrador público deve ter hoje é procurar antever as conseqüências que
determinadas iniciativas podem acarretar às gerações futuras.
Se, provavelmente, já não estará aqui para saber o resultado em algumas décadas
de sua decisão de hoje, isso não pode servir de consolo ao administrador
imprevidente porque o julgamento da posteridade costuma ser implacável. Ninguém
de boa formação moral pode aceitar que possa vir a ser visto pelos seus pósteros
como exemplo de imprudente, inconseqüente ou perdulário.
Por isso, é de recomendar que as autoridades de todas as esferas de governo –
municipal, estadual e federal – envolvidas na discussão dos planos de expansão
do porto de Santos tenham muito cuidado nas decisões que lhes caberão no sentido
de procurar eliminar os gargalos logísticos que afetam toda a Baixada Santista.
Um levantamento recente feito pelo governo federal e Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID) mostrou que a movimentação de cargas no porto de Santos
saltará de 80 milhões de toneladas, em 2008, para 230 milhões de toneladas em
2014. Essas estimativas dão conta também que a movimentação de contêineres, que
em 2008 somou 2,6 milhões de TEUs (unidade equivalente a um contêiner de 20
pés), será triplicada até 2014.
Mas é claro que nada disso será possível se não houver a aplicação de recursos
não só em equipamentos como em infraestrutura, principalmente em obras que
facilitem o acesso ao porto, hoje cada vez mais estrangulado em determinados
trechos. O que depender da iniciativa privada, com a construção de novos
terminais, não há dúvida de que a previsão tem todas as possibilidades de se
concretizar. Já por parte do poder público os fatos antecedentes não permitem
muito otimismo.
Basta ver a lentidão – em conseqüência de freqüentes adiamentos e dilatações de
prazos – das obras do Rodoanel e do Ferroanel ou a demora para que sejam
iniciados os serviços para dragagem e aprofundamento do canal de navegação do
porto de Santos.
Seja como for, para além dos anúncios sempre cercados de um cariz midiático, o
que se espera é que o governo do Estado, mais especificamente, elimine vários
pontos críticos no sistema viário de acesso ao porto. É o caso do Viaduto 31 de
Março, que interliga o bairro do Jardim Casqueiro, em Cubatão, ao sistema
Anchieta-Imigrantes, hoje completamente saturado. Para se ter uma ideia da
lentidão como o poder público se movimenta, basta lembrar que essa é uma
reivindicação que a população de Cubatão e o Centro das Indústrias do Estado de
São Paulo (Ciesp) fazem há pelo menos duas décadas.
Outra questão que se arrasta há anos é a eliminação do tráfego de ferryboats
entre Santos e Guarujá à entrada do canal do estuário. Apesar de muitas
discussões, ainda não se definiu o que será feito no local: uma ponte estaiada
ou um túnel submerso. Tanto uma como outra obra terá de ser muito bem pensada
porque, em alguns anos, se mal projetada, poderá inviabilizar a entrada de
grandes navios no canal de navegação.
Se a situação hoje já não é confortável – mesmo com a redução do comércio
exterior em função da crise financeira internacional –, imagine-se como estará
em 2014, a levar-se em conta as previsões de movimentação de carga do próprio
governo e do BID. E mais: há pela frente uma série de fatores que, fatalmente,
haverá de contribuir para o estrangulamento viário na região, como a ampliação
do escoamento da produção agrícola do Centro-Oeste, especialmente de Goiás, o
crescimento da carga conteinerizada e as novas necessidades que advirão das
obras previstas para a exploração de petróleo e gás na Bacia de Santos.
Para atender a essa demanda, há necessidade da construção ou ampliação de
rodovias, novos pátios reguladores para caminhões e terminais retroportuários.
Como há na Baixada Santista uma visível limitação de áreas disponíveis – até
porque grande parte do território ainda não ocupado na área continental é
formada por áreas de preservação ambiental –, não há dúvida que a tarefa que
aguarda a atual geração de administradores públicos é das mais espinhosas. É
claro que ninguém tem o dom de prever o futuro, mas planejamento e prudência
podem muito bem evitar problemas.
Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do
Centro de Logística de Exportação (Celex), de São Paulo-SP.
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br