O Futuro da Terceirização Logística no Brasil
Por Marco Antonio Oliveira Neves
25/09/2009
O processo de terceirização iniciou-se na década de 80, quando atividades não
diretamente relacionadas com o core business (razão de ser) das empresas tiveram
a sua gestão e operação transferidas para empresas especializadas. A princípio
foram terceirizadas as atividades de limpeza, segurança patrimonial, restaurante
interno, manutenção predial, etc.
Com o advento da logística em meados da década passada, mais precisamente por
volta de 1.995, muitas empresas optaram também por terceirizar parte da gestão e
da operação da sua cadeia logística. A chegada dos Operadores Logísticos
internacionais, ocorrida também nesse período, colaborou para a aceleração desse
processo.
Passados 10 anos, devemos refletir sobre os resultados alcançados e discutir os
caminhos futuros da terceirização logística. Afinal, estamos tratando de um
modismo ou de uma realidade no meio empresarial? Aonde acertamos e aonde
erramos? E o que precisamos fazer para explorar adequadamente os benefícios da
terceirização logística?
Nossos erros:
* A quase totalidade dos processos de terceirização logística focou única e
exclusivamente a redução de custos. Nessa famigerada busca por custos mais
competitivos, foram perdidas importantes informações históricas, rotinas,
procedimentos, referenciais de nível de serviço e pessoal especializado. Em
casos mais graves, inclusive Clientes foram perdidos! No outro lado, a prática
exaustiva e indiscriminada de preços baixos transformou a logística em uma
commodity, fazendo com que muitas empresas nivelassem seus serviços "por baixo".
* A terceirização logística foi orientada para as grandes empresas,
especialmente para as corporações industriais multinacionais, mais receptivas a
essa idéia, em função das experiências vivenciadas nos Estados Unidos e Europa.
Dada a limitação desse mercado, rapidamente a oferta de serviços superou a
demanda, provocando reduções abruptas nos preços praticados, colaborando
diretamente para o processo de "comoditização" da logística. As pequenas e
médias empresas nacionais, relegadas a um segundo plano, mas que acompanhavam de
perto os problemas vividos pelas grandes indústrias, se transformaram em focos
de resistência à terceirização logística, aumentando ainda mais as dificuldades
das empresas prestadoras de serviços logísticos que tentaram migrar para
mercados mais rentáveis.
* Por parte do contratante, muitos processos de terceirização logística foram
conduzidos sem a metodologia adequada e sem a imparcialidade devida, levando à
formação de parcerias ruins e a conclusões técnicas equivocadas.
* Em muitos casos a parceria entre os prestadores de serviços logísticos e
indústria não estava baseada em um contrato formal, e nos poucos casos
verificados, o contrato praticamente restringiu-se a temas jurídicos, não se
preocupando em estabelecer um documento de trabalho, detalhando o escopo de
atuação das empresas, nível de desempenho desejado, riscos a serem
compartilhados, recompensas, planos de contingência, premissas operacionais,
níveis de operação, etc.
* Não foram implantados indicadores de desempenho para a gestão logística e
tampouco uma sistemática de prevenção e correção dos desvios verificados em
relação às metas estabelecidas.
* Em muitos processos apenas se transferiu a operação logística, permanecendo a
gestão nas mãos do contratante. A grande maioria dos processos exclusivamente
baseados em mão-de-obra e ativos operacionais fracassou.
* Muito se prometeu na venda e pouco foi entregue na prática, criando muitas
expectativas por parte do contratante. E o pós-venda, importante ferramenta para
a fidelização dos Clientes, deixou a desejar.
* Poucas empresas se capacitaram tecnicamente, e não desenvolveram ou
aprimoraram a sua inteligência logística. Erraram ao simplificar demais os
problemas e ao adotarem soluções superficiais para resolvê-los. E continuam
errando ao investir muito pouco no treinamento da equipe.
* Distorções e desconhecimento dos componentes de custos na elaboração dos
preços conduziram as empresas a discussões acaloradas, que muitas vezes
comprometeram o relacionamento entre os prestadores de serviços logísticos e
seus Clientes.
* Por fim, a questão cultural, em muitos casos, inviabilizou parcerias de longo
prazo.
Infelizmente, poucos foram os nossos acertos, portanto, temos um longo caminho a
percorrer. Existem bons exemplos individuais, mas não há como generalizar uma
prática de excelência no mercado.
Temos notado, porém, que grande parte do empresariado do setor logístico tem se
mostrado bastante pró-ativo e interessado em solucionar os problemas de seus
Clientes. Se em alguns casos falta o conhecimento técnico e o uso de tecnologia,
na outra ponta sobra boa vontade, comprometimento, coragem, empatia e
perseverança.
Sob o ponto de vista empresarial, muitas empresas prestadoras de serviços
logísticos estão se especializando em determinados segmentos, criando serviços e
infra-estrutura específicos para o atendimento das expectativas e necessidades
de seus Clientes. É o caso do segmento químico, farmacêutico, automotivo,
promocional, gestão documental, alimentos perecíveis e bens sensíveis. Há espaço
para que isso também ocorra no agronegócio, na indústria alimentícia, no setor
de alta tecnologia (informática, automação, aeroespacial, eletroeletrônicos e
telecomunicações), no ramo de cosméticos e no segmento de bens de capital.
Concluindo, temos um longo, difícil e sinuoso caminho a percorrer, em ambos os
lados. O sucesso da terceirização logística passará, necessariamente, pela
atitude colaborativa entre as partes, pela visibilidade de toda a cadeia
logística, pelo emprego de tecnologia on line, real time, pela mescla entre
inteligência logística e simplicidade, pelo uso de métodos no desenho,
dimensionamento e implantação de projetos logísticos, pelo desenvolvimento da
equipe e pela capacidade de gestão e operação.
Mais do que reduzir custos, o principal papel do Prestador de Serviços
Logísticos estará relacionado a viabilizar maiores vendas e maior lucratividade
para os seus Clientes!!!
Marco Antonio Oliveira Neves é Diretor da Tigerlog Consultoria, Hunting e
Outplacement e Treinamento em Logística Ltda. marcoantonio@tigerlog.com.br -
www.tigerlog.com.br