Futuro do País em jogo
Por Mauro Lourenço Dias
25/03/2010
Não foi nenhum crítico contumaz ou adversário político do governo quem disse,
com todas as letras, que não existe um plano estratégico a médio e longo prazos
para resolver a questão do escoamento dos produtos agrícolas – e, por extensão,
dos manufaturados – da região Centro-Oeste. Foi o próprio ministro da
Agricultura, Reinhold Stephanes, quem afirmou isso, acrescentando que os custos
com o transporte de alguns produtos, como o milho, por exemplo, acabam sendo
maiores do que o valor do próprio grão.
O raciocínio vale também para os produtos industrializados que, à falta de
investimentos no modal hidroviário e em linhas férreas, são obrigados a viajar
de Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul até o Porto de Santos
sobre rodovias esburacadas e erodidas em vários pontos. Tudo isso representa
custos que o fabricante é obrigado a acrescentar ao valor do seu produto,
correndo risco de perder mercado.
Segundo dados da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), o custo de
transporte de uma tonelada de soja por mil quilômetros, entre Goiás e o Porto de
Santos, é de R$ 54,00 no modal hidroviário, de R$ 80,00 no ferroviário e de R$
105,00 por caminhão. Ocorre, porém, que os modais hidroviário e ferroviário são
pouco explorados porque apresentam sérios obstáculos de infraestrutura, ao
contrário do que ocorre nos Estados Unidos, onde são largamente utilizados.
Além disso, apesar dos seminários que volta e meia são realizados em Santos e
São Paulo, que mais fazem parte de uma estratégia de marketing do que resultado
de uma busca efetiva de soluções, os portos – especialmente, Santos, responsável
por 26% do comércio exterior brasileiro – não estão contemplados com projetos
que visem à melhoria das vias de acesso das cargas oriundas do interior do País.
E aqui vias de acesso incluem os sistemas ferroviário e hidroviário, modais mais
competitivos para longas e médias distâncias, como se constata nos números
apresentados pela Faeg.
A Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp) reconhece que, em se tratando
de infraestrutura, o Porto de Santos tem espaço para atender ao incremento da
demanda de cargas agrícolas nos próximos quatro anos. É de lembrar que, em 2009,
um terço de toda a produção agrícola nacional passou pelo cais santista. Mas,
levando-se em conta um horizonte mais longínquo, a Codesp já prevê a necessidade
de construção de dois grandes terminais para granéis vegetais em Conceiçãozinha,
em Guarujá, e no Largo Santa Rita, na área continental de Santos.
A outra saída – que não significa excluir as demais – é descentralizar o
escoamento de grãos com a utilização de portos mais próximos à região
Centro-Oeste, como o Porto de Itaqui, no Maranhão, e Pecém, no Ceará. Mas aqui
também as perspectivas não são nada animadoras porque não há condições adequadas
para o transporte por ferrovia e muito menos por rodovias. A tão decantada
Ferrovia Norte-Sul, que terá 2.100 quilômetros de extensão e cortará os Estados
do Pará, Maranhão, Tocantins, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do
Sul, ainda está longe de sua conclusão.
Diante disso, o novo governo que deverá sair das urnas em 2010 deveria se
preocupar prioritariamente não só em eliminar os gargalos logísticos como
melhorar e expandir tanto a malha rodoviária como a ferroviária, além de
investir em hidrovias e dutovias, com a participação da iniciativa privada. Isso
é que é fundamental, ainda que outras iniciativas rendam muito mais espaço na
mídia. Afinal, sem atacar frontalmente essa questão, o País continuará
patinando.
Mauro Lourenço Dias é vice-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São
Paulo-SP, e professor de pós-graduação em Transportes e Logística no
Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br