A Logística daqui a 5 e 25 anos
Por Marco Antonio Oliveira Neves
06/10/2009
Nos próximos 5 anos...
A Palavra-Chave é SINERGIA
Cada vez mais a "sinergia" será explorada pelos profissionais e empresas de
logística. A necessidade de reduzir custos e proporcionar melhores níveis de
serviço ultrapassará as barreiras organizacionais.
Empresas "pares" e "complementares" atuarão em conjunto, visando oferecer
soluções completas a seus Clientes.
Empresas concorrentes serão vistas como aliadas, aproveitando sinergias
operacionais para melhor utilizar veículos de transporte e áreas de armazenagem,
racionalizar uso de mão-de-obra, minimizar investimentos em ativos operacionais,
barganhar junto a fornecedores, etc. O que a 'Folha de São Paulo' e 'O Estado de
São Paulo' ousaram fazer recentemente com a criação da SPDL é o que as demais
empresas farão amanhã.
Vale também lembrar de exemplos como Varig e Tam e a operação conjunta entre a
Goodyear e a SKF.
A Exploração dos Clusters Industriais
Ainda na linha da sinergia, clusters industriais serão melhor aproveitados e
organizados por grandes 3PLs ou por pools de provedores logísticos
especializados. São exemplos de clusters: a indústria moveleira na Região de
Bento Gonçalves (RS) e Itatiba (SP), a indústria de calçados no Vale dos Sinos
(RS) e em Franca (SP), a logística do turismo para hotéis e restaurantes em
Campos do Jordão (SP), Monte Verde (MG), Região Serrana (RJ), Visconde de Mauá
(RJ), Serra Gaúcha (RS), Balneário Camboriú e Florianópolis (SC), a indústria de
conservas em Pelotas (RS), a indústria vinícola na Serra Gaúcha (RS) e tantos
outros.
O Modelo de Tiers ou Camadas
Há alguns anos o setor automotivo vem se organizando no conceito de "tiers" ou
camadas estando ao redor das grandes montadoras as empresas que compõem o "tier
one", aquelas que fornecem diretamente às montadoras e que realizam a montagem
de subconjuntos ou módulos como direção, sistema de freio, motor, injeção
eletrônica, etc. Ao redor do "tier one" estão empresas fornecedoras de peças ou
de pequenos conjuntos, que constituem o "tier two". E ao redor, fornecendo
peças, tanto para o primeiro nível quanto para o segundo estão inúmeras empresas
que compõem o "tier three". Empresas do terceiro nível podem eventualmente
contar com fornecedores, e assim continuamente. Para cada modelo de veículo
produzido, há algo entre 250 e 300 fornecedores envolvidos.
Antigamente, empresas dos diferentes níveis se relacionavam com as montadoras,
tornando extremamente complexa essa logística de abastecimento fazendo com que
fosse praticamente impossível alcançar ganhos de produtividade e economias em
custos.
Mudança semelhante a essa deverá ocorrer no segmento de prestadores de serviços
logísticos, em função de pressões dos grandes 3PLs e 4PLs e dos próprios
Clientes, que buscarão um único ponto de contato e uma única empresa responsável
pela gestão dos demais 3PLs.
No centro dessa rede de relacionamentos teremos os grandes embarcadores e
operadores logísticos, na sua grande maioria empresas norte-americanas e
européias, na forma de 3PLs ou 4PLs. No primeiro cinturão ao redor, compondo o "tier
one" estarão as grandes e médias transportadoras, médios operadores logísticos,
empresas de tecnologia e grandes provedores de serviços logísticos
especializados. Na segunda camada ao redor, formando o "tier two" estarão
pequenas e médias transportadoras e diversos provedores de serviços logísticos
especializados. Na periferia estarão as microempresas de transporte,
caminhoneiros autônomos e outras pequenas empresas prestadoras de serviços em
logística.
O resultado disso é que cada vez mais será RESTRITO o relacionamento das
empresas prestadoras de serviços logísticos com as empresas clientes. Isso
produzirá impactos gigantescos nas empresas, principalmente na estrutura e no
perfil da área comercial, nas formas de remuneração, em conceitos de gestão do
desempenho, planos de marketing, etc.
A "Era" da CVRD
A Vale do Rio Doce será cada vez mais reconhecida como uma empresa de logística
do que simplesmente como uma empresa de minérios e alumínio primário. A receita
proveniente de serviços logísticos deverá atingir algo próximo de US$ 3,5
bilhões até 2.010 e possivelmente represente cerca de 30 % da receita de todo o
grupo. Novas empresas do setor logístico deverão ser incorporadas ao grupo,
através de fusões ou aquisições, principalmente no modal rodoviário. A empresa
deverá formar alianças operacionais estratégicas com os grandes players do
mercado mundial de logística, visando criar uma rede de alcance global,
permitindo a expansão da empresa para os mercados externos.
Dessa forma, a CVRD se constituirá na maior, mais respeitada e poderosa empresa
de logística da América Latina e liderará o mercado regional por muitos anos
consecutivos.
Os comentários acima escritos expressam única e exclusivamente a opinião do
autor do artigo, não estando baseado em informações oficias ou extra-oficiais de
colaboradores da CVRD.
A Consolidação dos 4PLs
Ainda um conceito pouco conhecido e desacreditado pela grande maioria, os 4PLS
emergirão a partir das grandes empresas multinacionais de logística que aqui se
instalaram em meados da década de 90. Será o caminho natural dessas empresas,
que optaram por não investir em ativos operacionais, mas muito mais em
tecnologia e inteligência logística. A evolução para 4PL será a chave para a
sobrevivência dos grandes 3PLs norte-americanos e europeus.
Essas grandes empresas já atuam, em grande parte como 4PLs, mas comportam-se
como 3PLs...
"Seleção Natural" do Mercado
Muitas empresas que partiram para a transformação em Operadores Logísticos
deixarão de existir, em função de erros na definição da estratégia de atuação da
empresa, falhas no controle de custos, perda de receita de vendas devido ao
nível dos serviços prestados e pela concorrência, tecnologia deficiente, etc.
Outros provedores de serviços logísticos também sucumbirão frente aos novos
desafios e exigências do mercado.
Cada vez mais a receita se concentrará nas mãos de poucas empresas.
A Descoberta das Médias Empresas pelos Grandes 3PLs
Grandes 3PLs buscarão novos Clientes entre as empresas de médio porte dada a
saturação do processo de terceirização logística nas grandes empresas.
Remando contra a Maré...
Uma parcela significativa de empresas de renome optará por não terceirizar a sua
logística e se constituirão em excelentes modelos de gestão, levando a muitos
questionamentos, contrariando os principais motivos que levam à terceirização
das operações.
Os prestadores de serviços logísticos precisarão ser cada vez mais criativos na
venda de seus serviços.
A Hora e a Vez da Inteligência Logística
Ainda vivemos os primórdios da inteligência logística no Brasil, muitas vezes
confundida com uma área de projetos logísticos, limitada a desenhar e
dimensionar operações para seus Clientes.
A inteligência logística se constituirá no grande diferencial competitivo entre
as empresas de logísticas; é ela que evitará que serviços de valor agregado não
se transformem em commodities.
Os Novos Requerimentos de Entrega
Entregar o mais rápido possível nem sempre será a situação ideal para seu
Cliente.
Principalmente no B2C, ganharão importância as entregas agendadas conforme as
necessidades dos Clientes.
Entregas nos finais de semana também serão cada vez mais freqüentes em função da
disponibilidade de recebimento dos Clientes.
O "Novo" Gerente de Logística
O novo Gerente de Logística se envolverá cada vez menos com assuntos
operacionais de seu dia-a-dia, dada a evolução e confiabilidade do nível de
serviço prestado pelos seus parceiros logísticos e pela longevidade do
relacionamento comercial. Colaborarão também para isso o próprio desenvolvimento
qualitativo dos profissionais em cargos de supervisão, chefia e analista.
Esse profissional se dedicará mais às atividades estratégicas em logística,
exigindo a contribuição de seus parceiros. Os parceiros logísticos precisarão
evoluir em conjunto, para atender às novas demandas de seus Clientes, que serão
cada vez mais complexas.
Sua empresa está pronta, por exemplo, para considerar o impacto fiscal numa
reavaliação da rede de centros de distribuição do Cliente?
O Foco no Cliente do Cliente
Para diferenciar-se de seus concorrentes e realmente agregar valor aos serviços
logísticos prestados, o foco passará a ser no CLIENTE do seu CLIENTE e não mais
no Cliente direto, em geral o gerente, supervisor ou encarregado do departamento
de logística ou suprimentos da empresa atendida.
Além de indicadores de desempenho, que tal levar para o seu Cliente um
diagnóstico realizado junto aos seus Clientes? Agindo dessa forma, sua empresa
poderá antecipar-se a problemas que seu Cliente não esteja percebendo ou demore
a perceber, contribuindo diretamente para que ele venda mais e melhor!
Informações como essas ajudarão o seu Cliente a enxergar oportunidades de
aumento da lucratividade não apenas com a redução de custos, mas também com o
aumento de participação do mercado.
O Modelo Misto Broker e Operador Logístico
Broker ou Corretor é um agente que serve de intermediário entre o vendedor e
comprador, auferindo uma comissão para tal fim. Atua como um agente de vendas,
vendendo toda a linha de produtos dos fabricantes que representa, acompanhando o
giro e a demanda dos produtos nas lojas, realizando atividades de merchandising,
pesquisas de mercado, etc.
Trabalhando com brokers, a indústria transforma o custo fixo de sua equipe de
vendas em variável, pois os "agentes de vendas" recebem sobre os negócios
efetivados.
Essas empresas estão desenvolvendo uma logística simples, objetiva e econômica,
mas extremamente eficaz, contando com estrutura própria ou com o suporte de
micros, pequenas e médias empresas de transportes. Por enquanto sua atuação tem
se limitado a produtos de consumo massivo como alimentos, bebidas não-alcoólicas
e produtos para higiene e limpeza. Empresas como Quaker, Kraft, Melitta, Arcor,
Effem, Santher, Parmalat, Garoto e Dana e diversas outras, estão utilizando esse
modelo de operação.
Levam grande vantagem no mercado principalmente pelo conhecimento que vem
desenvolvendo em função do contato com os Clientes do seu Cliente e em breve
estarão incomodando muitas empresas prestadoras de serviços em logística.
Saudades do mark up...
Cada vez mais os preços serão fixados em bases variáveis. Cada vez mais, parte
da remuneração estará atrelada ao desempenho do 3PL. E num futuro não muito
distante, parte dela estará relacionada ao desempenho do próprio Cliente.
Processos simples de remuneração darão lugar a complexos sistemas de pagamento,
exigindo das empresas uma reformulação total de seu processo de precificação.
O novo processo de formação de preços envolverá simulação de cenários de venda
ou de operação, análise de risco, conceitos de administração financeira (TIR,
VPL, pay-back), opção por fontes de financiamento externas e análises fiscais
mais complexas.
O que Vender e para onde Crescer?
Serviços como Movimentação e Armazenagem, Logística Reversa, Gestão de
Transportes, Gestão de Compras e Estoques e Inteligência Logística aplicada a
Projetos Logísticos ganharão destaque, exigindo dos 3PLs rápida adaptação.
Os mercados potenciais para os 3PLs serão aqueles relacionados principalmente
aos novos costumes da sociedade moderna. Setores como fast-food, empresas de
alta tecnologia (eletro-eletrônicos, telecomunicações, informática, etc) e
farmacêutico crescerão acima da média. Setores exportadores também continuarão
se destacando.
E daqui a 25 anos...
A Formação das Comunidades Logísticas.
Grupos de empresas atingirão altíssimos níveis de sofisticação tecnológica e
qualidade em seus produtos e serviços, se diferenciando enormemente das demais
empresas. Em função disso se organizarão em Comunidades Logísticas, explorando
ao máximo os benefícios da sinergia existente entre elas. Barreiras
administrativas, tecnológicas e econômicas serão criadas naturalmente ou não,
visando manter o "equilíbrio" do sistema. Um ou mais 4PLs gerenciarão a cadeia
de materiais, apoiados por 3PLs altamente capacitados. Os resultados econômicos
alcançados serão surpreendentes. O mercado logístico da forma como atualmente é
conhecido continuará existindo, porém, na "periferia" das comunidades
logísticas, envolvendo pequenas e médias empresas.
3PLs e 4PLs como "sócios" das Empresas.
Seria algo como a evolução do relacionamento entre o Mc Donalds e seu operador
logístico, a Martin Brower, empresa que lhe atende a 50 anos. A longevidade do
relacionamento comercial, a relação de confiança entre as partes e o
envolvimento e comprometimento com a operação do Cliente transformarão os 3PLs e
4PLs em verdadeiros sócios das empresas clientes, com participação decisória e
possivelmente acionária.
Possivelmente parte da remuneração do 3PL ou 4PL seja em expressa em opção de
compra de cotas de ações da empresa cliente.
Consórcios de 3PLs e 4PLs
Dentro ou fora das Comunidades Logísticas, sob a coordenação ou não de um 4PL,
grandes e médios 3PLs se unirão no campo operacional com o objetivo de reduzir
custos. Imagine, por exemplo, Ryder e Penske dividindo um mesmo centro de
distribuição, compartilhando sistemas, pessoas e equipamentos, atendendo ou não
a Clientes diferentes.
Grandes Fusões e Aquisições Globais
Grandes transformações envolverão as gigantescas empresas do setor logístico
através de fusões ou aquisições formando mega conglomerados logísticos mundiais.
O Elemento Humano como Diferencial entre os Grandes Players da Logística
Dada a evolução tecnológica, os altos patamares de nível de desempenho alcançado
nos serviços logísticos e a igualdade dos preços praticados entre as empresas, o
diferencial entre os grandes players do mercado logístico voltará a ser a
capacidade do ser humano de se relacionar e se comunicar.
Como à moda antiga, as decisões voltarão a se basear em pessoas, valores,
afinidades, etc.
Os "Super Profissionais" da Logística
Em função das complexidades inerentes ao negócio logístico, à alta aplicação
tecnológica, às pressões por elevados níveis de serviço e a necessidade de atuar
de forma enxuta, profissionais altamente capacitados serão necessários. Num 3PL
esse profissional terá que reunir conhecimentos e qualidades para vender,
projetar, precificar e operar.
As empresas terão que desenvolver a aprimorar seus sistemas de atração,
identificação e retenção de talentos e as Universidades, Faculdades e Empresas
de Treinamento terão que se preparar para melhor capacitar estes profissionais.
Menu de Empresas
Sub-empresas ou divisões terão sido criadas dentro dos grupos empresarias com o
objetivo de especializar-se em determinado segmento ou tipo de serviço, como já
é realizado pelas grandes empresas de logística nos EUA e Europa, como a UPS,
Fedex, DHL, etc.
As empresas existirão sob uma mesma estrutura de gestão e controle e atuarão em
conjunto explorando as sinergias existentes.
A "Extinção" do Tradicional Gerente de Logística nas Grandes Empresas
Dada a regularidade e o nível de atendimento prestado pelos 3PLs e 4PLs, o
tradicional Gerente de Logística deixará de existir, principalmente nas grandes
empresas. Em seu lugar surgirá um profissional com um perfil muito semelhante a
um Gerente de Qualidade, porém com novas responsabilidades, possivelmente
fundindo-se a outros departamentos internos da empresa e muito mais voltado ao
Cliente final.
De certa forma será um processo semelhante ao ocorrido com um dos cargos de
maior destaque nas organizações do século XX, o de Gerente de Produção, que hoje
atua muito mais como um Gerente da Qualidade do Processo Produtivo do que como
um autêntico Gerente de Produção, acumulando, em muitos casos, atividades
relacionadas ao desenvolvimento de fornecedores, desenvolvimento de embalagens,
atendimento a Clientes, etc.
Logística 24 horas por dia, 7 dias por semana
O que é hoje uma característica de alguns provedores de serviços logísticos
passará a ser de todas as empresas atuantes em logística. O funcionamento
ininterrupto exigirá adaptação das empresas e dos profissionais.
Powerhouses
O contínuo aumento da complexidade das operações dos armazéns exigirá
investimentos em tecnologia de informação e na automação da operação de
movimentação e armazenagem, permitindo atender a diferentes perfis de operação
com a mesma produtividade e confiabilidade.
Indicadores de produtividade nunca antes imaginados serão alcançados com o
emprego intensivo de sistemas automatizados, refletindo seus benefícios para o
setor de transportes.
Novos Mercados para a Logística
A "indústria do lazer e do entretenimento" será um dos grandes mercados que se
abrirão para os profissionais da logística. Profissionais e empresas altamente
capacitadas serão necessárias para o gerenciamento e operação de um negócio
extremamente complexo.
A logística do agribusiness também terá se rendido aos encantos da logística.
A Logística Pública
Rendendo-se à competência do setor privado na gestão e na operação da logística,
o setor público transferirá grande parte de suas atribuições a empresas
privadas. Será algum muito semelhante, mas mais abrangente, ao que tem sido
feito nas rodovias privatizadas.
Atividades relacionadas ao monitoramento do trânsito, segurança nas vias
públicas, gerenciamento de áreas restritas ao trânsito de veículos, planejamento
viário e etc serão realizadas por grandes consórcios empresariais formados por
4PLs e 3PLs
O Brasil em Destaque no Cenário Logístico Mundial
Herdamos dos norte-americanos o desejo obsessivo pela redução dos tempos e
distâncias e dos europeus a capacidade de otimizar operações de movimentação e
armazenagem.
Aliada à criatividade e flexibilidade de nosso povo, superaremos as dificuldades
existentes e nos tornaremos referência mundial em logística. Isso abrirá caminho
para que as multinacionais brasileiras em logística conquistem mercados externos
e para que muitos de nossos profissionais sejam "exportados" para EUA e Europa
para gerenciar complexas operações.
Marco Antonio Oliveira Neves é Diretor da Tigerlog Consultoria, Hunting e
Outplacement e Treinamento em Logística Ltda. marcoantonio@tigerlog.com.br -
www.tigerlog.com.br