Mais (e não menos) Incentivo
Por Milton Lourenço
06/11/2009
Se já estava difícil, vai ficar pior. Esse é o sentimento dos empresários
ligados ao setor exportador, depois que o governo federal sinalizou que pode
acabar com as compensações da chamada Lei Kandir, que prevê a desoneração das
exportações no âmbito estadual. Essa sinalização veio com a decisão do governo
federal de deixar de fora da previsão de receita no Projeto de Lei Orçamentário
de 2010 as compensações feitas aos Estados.
Não é preciso pensar muito para concluir que quem vai pagar a conta pela
suspensão dos repasses – de até R$ 3,9 bilhões por ano – serão as empresas
exportadoras. Afinal, está claro que a conseqüência maior da decisão
governamental será o cancelamento dos incentivos fiscais hoje concedidos às
exportadoras.
Com isso, o produto manufaturado brasileiro, que já está sem preço em razão do
câmbio valorizado, vai ser afastado de vez da competição no mercado externo.
Quem vai ganhar com isso será a China que, com a sua conhecida política
agressiva, deverá ocupar de vez o espaço que, um dia, pertenceu ao produto
industrial brasileiro.
Embora o País já tenha deixado para trás a recessão técnica, não há dúvida que
houve, em função da crise mundial, uma queda generalizada na indústria. E, para
recuperar o terreno, o que a indústria exportadora precisa no momento é de
alguma forma de incentivo, já que o Brasil nunca teve uma política dirigida ao
setor, o que não deixa de ser lamentável, pois, afinal de contas, só o produto
industrial cria empregos em grande número.
Para piorar, o governo brasileiro nunca conseguiu formalizar um acordo comercial
com um grande país ou com um grande bloco, com exceção do Mercosul, que, até
agora, não tem servido nem para garantir o espaço dos produtos brasileiros nas
prateleiras dos países vizinhos. E não o fez porque preferiu priorizar acordos
com países em desenvolvimento, o que se mostrou pouco viável, já que as nações
mais pobres dependem umbilicalmente dos países desenvolvidos e preferem lutar
por acesso preferencial aos mercados ricos.
Como exemplo, basta lembrar que, graças às compras de commodities pela China, a
América Latina – especialmente Argentina, Chile e México – vem ganhando folga
nas suas contas externas para adquirir produtos das indústrias brasileiras,
embora outros setores também tenham sofrido com a concorrência asiática.
Como o governo não se mostra disposto a mobilizar seus aliados no Congresso para
debater e aprovar a reforma tributária e a reforma trabalhista, o que se pode
esperar é que os produtos brasileiros sejam cada vez mais caros e, portanto,
continuem sem condições de entrar na competição pelo mercado externo.
Em função disso, já não bastasse a concorrência chinesa, o Brasil começa a
perder espaço também no mercado norte-americano para outros países asiáticos,
como Vietnã e Indonésia, que, como têm menores custos com mão-de-obra e carga
tributária, podem oferecer preços mais atraentes. O resultado disso pode ser
conferido nos números das exportações brasileiras para os EUA: só no primeiro
semestre deste ano, caíram 43,7%.
Um exemplo: as vendas de sapatos brasileiros recuaram 29,5%, enquanto as do
Vietnã subiram 20,1% e as da Indonésia, 14,4%. Mesmo em intensidade menor,
situação semelhante ocorreu na área de têxteis, tendo a exportação brasileira
para os EUA sofrido uma redução de 31,9%. Em outras palavras: os produtos
brasileiros, que desde 2004 estavam perdendo competitividade, com a crise viram
esse processo passar por uma intensificação.
O que se espera é que o governo desperte para o tamanho do tombo sofrido pelas
exportações não só para os EUA como para outros mercados. É certo que o comércio
internacional impactou as contas externas das economias de todo o planeta, mas a
falta de reformas, como tributária e trabalhista, ao lado de um câmbio
valorizado, está tornando os produtos brasileiros mais caros. Portanto, esta não
seria a hora de retirar incentivos, mas sim de aprofundá-los. É assim que agem
as grandes nações exportadoras
Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do
Centro de Logística de Exportação (Celex), de São Paulo-SP.
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br