No Calor da Hora
Por Milton Lourenço
15/09/2010
Apesar da realização de simpósios com o objetivo de discutir saídas para o
desenvolvimento da infraestrutura portuária, a verdade é que o processo de
modernização do sistema portuário avança a passos paquidérmicos. Questões
essenciais como o aperfeiçoamento dos processos de transporte e logística, a
ampliação das vias de acesso aos portos, reequilíbrio de uma matriz de
transporte, condições operacionais, redução do tempo para a liberação de cargas
e a segurança do trabalhador não são discutidas a fundo. E, quando o são, não
ultrapassam as paredes dos ambientes refrigerados em que servem apenas para
fomentar debates estéreis.
Na realidade, o único plano-diretor que existe para o crescimento dos portos
limita-se a ações episódicas que são realizadas à medida que as circunstâncias
colocam as autoridades portuárias na parede. É o caso do número recorde de
navios que se enfileiram na barra de Santos à espera de ordem para atracar. Já
houve dia em que 130 embarcações estiveram fundeadas na barra.
Foi necessário chegar-se a esse ponto para que se “descobrisse” que a razão para
tal despropósito é o aumento das operações de açúcar no Porto. Só que, tal como
ocorria ao final do século XIX, a maior ou menor movimentação do produto depende
unicamente das condições climáticas.
De fato, quem se der ao trabalho de pesquisar a documentação da capitania de São
Paulo ao tempo do capitão-general Antônio Manuel de Melo Castro e Mendonça
(1797-1802) vai perceber que uma das preocupações do governante era o transporte
do açúcar, que vinha em lombo de muares de Itu e São Carlos, em saveiros e
lanchas pelo largo do rio Caniú, entre o pé da Serra em Cubatão e Santos. O
problema era que, se estivessem revoltas, as águas podiam molhar o açúcar e
condenar a carga ao perdimento.
Mais de dois séculos depois, “descobriu-se” que os terminais do Porto não
dispõem de cobertura para proteger a movimentação das cargas de açúcar em dias
de intempérie. Quando chove, a única saída é paralisar as operações.
Foi necessário que problemas climáticos em outras zonas produtoras, como
Tailândia e Índia, provocassem quebra da safra para que o produto brasileiro
passasse a ter maior procura. Coincidentemente, o preço dessa commodity sofreu
em maio uma queda de 50% em relação a fevereiro, sendo o produto negociado a US$
0,15 a libra-peso na Bolsa de Nova York, o que estimulou ainda mais o apetite
dos importadores. Tudo serviu para deixar em maior evidência as deficiências
estruturais do Porto.
Diante disso, a Secretaria Especial dos Portos (SEP) providenciou às pressas um
estudo que prevê a construção de coberturas nos terminais do Porto de Santos,
hoje responsável por mais de 75% do embarque do açúcar produzido no Brasil. Com
a cobertura dos terminais a ser providenciada pela Codesp, a previsão é que o
Porto venha a ampliar em 20% a sua capacidade de embarque de açúcar.
Essa opção pelo improviso explica outras questões portuárias, como o crescimento
desordenado de áreas destinadas à movimentação de cargas. A sensação que se tem
é que não há políticas públicas dirigidas ao setor portuário e que as decisões
são sempre tomadas de afogadilho, no calor da hora.
Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do
Centro de Logística de Exportação (Celex), de São Paulo-SP.
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br