A Ocupação do Continente
Por Milton Lourenço
04/01/2010
Embora tenha sido tema de uma série de reportagens publicadas pelo jornal
santista A Tribuna há 38 anos, a ocupação da área continental pelo Porto de
Santos voltou a ser apresentada como uma “nova” saída para o estrangulamento das
atividades portuárias. Para tanto, tornar-se-á imprescindível fazer o que os
desbravadores já faziam em meados do século XVIII – aproveitar o sistema
hidroviário com que a mãe-natureza dotou a região.
É de lembrar que aqueles pioneiros já executavam o que se propõe agora com ares
revolucionários, ao promover a travessia sobre barcaças do açúcar em sacos que
descia a Serra do Mar sobre o lombo de burros e bestas, aproveitando-se as
trilhas e os caminhos abertos pelos indígenas em tempos imemoriais.
Quem se der ao trabalho de consultar a documentação referente à capitania de São
Paulo do Arquivo Histórico Ultramarino, de Lisboa, que está em microfilmes no
Arquivo Público do Estado de Estado de São Paulo, irá perceber que a grande
dificuldade daqueles pioneiros era fazer com que o carregamento de açúcar
atravessasse o Largo do Caniú, desde o Cubatão Geral, onde os jesuítas tiveram
sua fazenda, até os trapiches no porto do Valongo sem que viesse a ser
danificado pelas águas.
Quase três séculos depois, a saída para o crescimento do porto continua a passar
pelo bom aproveitamento dos rios e canais da região, com a criação de áreas
retroportuárias e terminais em locais próximos a esses cursos d´água. Assim,
como na Alemanha, as cargas tanto a granel como em contêineres poderiam ser
movimentadas mais rapidamente e com maior eficiência por barcaças. Até porque
será, praticamente, impossível utilizar-se caminhões, sob o risco de se
estrangular ainda mais o sistema rodoviário e os acessos viários ao porto, ou
trens, que decididamente não constituem um modal rentável para curtas
distâncias.
Ao que se saiba, ainda não existe pronto nenhum estudo sobre a utilização desses
canais e rios regionais entre Cubatão e o Porto de Santos, mas, a princípio, não
haveria como evitar investimentos em infraestrutura que seriam necessários para
elevar pontes ferroviárias e rodoviárias que, nas atuais circunstâncias,
impediriam o livre tráfego das barcaças. Além disso, alguns canais teriam de
passar não só por obras de dragagem como de retificação do curso para evitar
algumas curvas perigosas. Com algumas obras pontuais, será possível viabilizar
esse sistema hidroviário em curto espaço de tempo.
Essa seria uma boa maneira de começar a diversificar a matriz de transporte do
Estado de São Paulo – hoje concentrada em 93% no modal rodoviário –, o grande
desafio desta década que se inicia. Ao mesmo tempo, será necessário expandir a
taxas superiores à expansão do Porto outros modais, como o ferroviário e o
dutoviário. Se tudo isso ocorrer, a natureza também vai agradecer. Até porque,
dificilmente, a Serra do Mar suportaria uma nova rodovia.
Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do
Centro de Logística de Exportação (Celex), de São Paulo-SP.
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br