O Paradigma da Automação
Por Eduardo Banzato
06/01/2010
A necessidade que as empresas têm nos últimos anos em relação à melhoria
contínua nos seus níveis de qualidade, produtividade e competitividade passa
também pelo desenvolvimento de soluções inovadoras que envolvem um maior ou
menor nível de automação.
Porém, quando se trata de automação, muitas empresas investem em soluções sem a
adequada análise de viabilidade técnica e econômica.
Introdução
A constante evolução do ser humano o conduz a um processo gradual de melhorias,
sejam elas do seu ambiente de trabalho, de qualidade de vida, de eliminação de
atividades desgastantes ou que não agreguem valor ou produtividade. Enfim, a
natureza do ser humano em buscar continuamente uma condição melhor para se
viver, que faz com que desenvolva soluções capazes de substituir o esforço
humano mental ou físico.
Assim, o que se pode observar no mercado é uma intensa proliferação de soluções
automatizadas que, segundo os seus criadores, causaram ou ainda causarão ganhos
significativos em aplicações específicas para as quais as mesmas foram
desenvolvidas.
O desenvolvimento de diferentes aplicações de sistemas de automação no mercado e
o "sucesso" adquirido por algumas empresas, levaram muitas outras a concluírem
que a automação seria uma das grandes armas na disputa pelo mercado.
Automação na logística
Com a valorização da logística como estratégia de competitividade, a automação
nesta área foi intensa. As soluções atualmente apresentam-se em duas grandes
famílias:
- Automação do fluxo de materiais e
- Automação do fluxo de informações
| Fluxo de materiais | Fluxo de informações |
| - Espaços (edifícios, armazéns, etc.); - Equipamentos de movimentação (veículos, transportadores contínuos); - Equipamentos de estocagem (estanterias, mezaninos, etc.); - Embalagens e unitizadores; - Diversos (balanças, equipamentos de segurança, etc.). |
- Tecnologia da informação; - Software de planejamento; - Software de gestão; - Software de supervisão; - Solução para coleta e transmissão de dados; - Gerenciamento de projetos. |
Paradigmas da automação
Em função da abrangência característica da logística e do rápido desenvolvimento
de soluções automatizadas nesta área, muitas empresas ficaram sem condições de
desenvolver análises adequadas de viabilidade para investimentos dessa natureza.
Desta forma, nos últimos anos, pôde-se observar uma série de investimentos que
caracterizaram-se como experiências isoladas; algumas com sucesso e outras, não.
Essas experiências caracterizadas pela falta de análises adequadas por parte das
empresas, estabeleceram os paradigmas da automação que agora afetam
significativamente os investimentos nesta área.
Como exemplo, podemos citar os dez paradigmas da automação na logística:
1. Paradigma da produtividade - Acredita-se que todo e qualquer tipo de solução
automatizada traga mais produtividade ao processo.
Isso não é necessariamente verdadeiro, pois análises detalhadas de alguns
processos simples e manuais são, em muitos casos, mais eficientes que soluções
automatizadas.
2. Paradigma do investimento - Acredita-se que todo e qualquer tipo de solução
automatizada é cara e, desta forma, a empresa não recuperará mais o investimento
feito inicialmente. Esse tipo de abordagem mostra a baixa qualidade de análise
de viabilidade que a empresa fez, pois muitos estudos detalhados mostram que
mesmo soluções de alto investimento inicial podem propiciar o retorno do
investimento em menos de um ano.
3. Paradigma da concorrência - Lamentável este paradigma, mas ainda existem
empresas que acreditam que a solução automatizada desenvolvida pela concorrência
é a melhor solução para o seu negócio.
4. Paradigma da matriz - Semelhante ao da concorrência: acredita-se que a
solução adotada pela matriz deve ser a melhor solução para suas filiais.
5. Paradigma do medo - Por falta de conhecimento, alguns profissionais têm
receio de decidir por soluções automatizadas e fracassarem, comprometendo seus
cargos.
6. Paradigma da obsessão - Em viagens de estudos, visitas a feiras técnicas e
conhecimento de outras empresas, algumas pessoas desenvolvem verdadeiras
obsessões por determinados tipos de equipamentos automatizados, softwares, etc.
Nestes casos, a análise de viabilidade é totalmente ignorada ou feita de forma
superficial.
7. Paradigma da independência - Acredita-se que todo e qualquer tipo de solução
automatizada traga total independência em relação a pessoas. Muitas empresas
querem investir em automação para se livrarem dos erros das pessoas e da
necessidade de treiná-las. No entanto, é preciso lembrar que sistemas
automatizados ainda não possuem a capacidade (instinto, etc.) que as pessoas
capacitadas têm.
8. Paradigma da redução de custo operacional - Algumas empresas não percebem que
há casos em que trocam-se várias pessoas não-capacitadas que custam pouco, por
um número relativamente menor, de pessoas capacitadas, a custos superiores. Isto
não quer dizer que é melhor trabalharmos com muitas pessoas não-capacitadas, mas
sim que, muitos casos, os custos operacionais (que não envolve apenas
mão-de-obra) são aumentados com a automação.
9. Paradigma da concorrência - Acredita-se que todo e qualquer tipo de solução
automatizada traga uma complexidade tão grande no processo que acabará
prejudicando, o que não é verdade.
Em muitas empresas, quem cria essa complexidade do processo são as próprias
pessoas que, pelo fato de não possuírem um sistema automatizado para disciplinar
as suas atividades, cometem erros, comprometendo o processo, por mais simples
que ele seja. É importante citar que, antes de automatizar, precisamos
simplificar os processos ao máximo.
10. Paradigma dos indicadores - A melhoria de desempenho obtida em outras
empresas por meio de automação na logística, não é garantia de melhoria dos seus
indicadores, pois não é válido pressupor que o seu desempenho em relação a estes
indicadores esteja no mesmo nível de outras empresas.
Existem muitos outros paradigmas relacionados com a automação na logística,
porém os apresentados acima caracterizam a maior parte deles.
Conclusão
Como se sabe, muitas empresas nem sequer iniciaram um processo de automação na
logística; porém, a evolução tecnológica que a humanidade possui é muito grande
e a globalização da economia levará grande parte dessas empresas rumo à
automação. Lembrando que os paradigmas não são necessariamente ruins, o mais
importante nesse ambiente é deixar nossos cérebros livres dos paradigmas e
posturas contrárias ou favoráveis à automação. Caso contrário, o simples fato de
defender ou não a automação poderá comprometer as oportunidades que poderão ser
exploradas em nossos negócios.
Eduardo Banzato é Diretor e instrutor da IMAM Consultoria Ltda, empresa
especializada na solução de problemas relacionados à logística e engenharia
industrial, movimentação e armazenagem de materiais, técnicas modernas de
administração da manufatura e estratégias de produtividade. www.imam.com.br e
www.revistaintralogistica.com.br