Pesquisa e Tecnologia
Por Milton Lourenço
21/05/2010
Um estudo preparado por técnicos da Federação das Indústrias do Estado de São
Paulo (Fiesp) explica com números aquilo que já se sabia de antemão: é o alto
investimento em pesquisa e tecnologia que tem impulsionado o crescimento das
vendas de produtos de média e alta tecnologia pela China. Em contrapartida, é o
baixo investimento feito pelo Brasil no mesmo setor que explica por que as
exportações brasileiras no segmento respondem por apenas 5,4% das vendas do
País, segundo dados de 2008. Só para comparar: naquele mesmo ano, esses produtos
(químicos, máquinas e carros) responderam por 22,5% das vendas externas da
China.
Já se foi o tempo em que se dizia que bastava ser chinês para que o produto não
prestasse, embora ainda hoje seja possível encontrar itens de baixa tecnologia
oriundos daquele país – especialmente aqueles vendidos em lojas de R$ 1,99 –
que, às vezes, apresentam riscos à saúde do consumidor. Hoje, segundo o
levantamento da Fiesp, as exportações de produtos de média e alta tecnologia
pela China quase equivalem às vendas de mercadorias de baixa tecnologia, que são
as mais visíveis aos olhos do consumidor, o que explica, de certa maneira, a
manutenção do preconceito.
O resultado dos investimentos feitos pelos chineses em pesquisa e tecnologia é
facilmente constatado no ritmo do seu crescimento: em 2008, a taxa de
investimentos da China em todos os tipos de produtos chegou a 40,9% do Produto
Interno Bruto (PIB), enquanto no Brasil ficou ao redor de 19%. Mas há outras
discrepâncias brutais apontadas pelo estudo da Fiesp, mesmo levando em conta
peculiaridades como diferenças populacionais ou o PIB de cada país: na China, há
4,6 engenheiros para cada grupo de 10 mil habitantes, o que equivale a dizer que
40% dos 600 mil formandos do país optam por engenharia, enquanto no Brasil
apenas 8% dos 30 mil formandos se dedicam a essa área, o que representa 1,6
engenheiros para cada grupo de 10 mil habitantes.
Além disso, desde que a China começou a se abrir para o mundo, centenas de
empresas multinacionais abriram unidades no país com a obrigação de transferir
também tecnologia. E o fizeram atraídas pelo baixo custo da mão-de-obra, carga
tributária baixa, câmbio estável e facilidade para investimentos em pesquisa e
tecnologia. Segundo números do levantamento da Fiesp, a participação chinesa nas
exportações globais saiu de 7,5% em 1997 para 12,3% em 2008, enquanto, no mesmo
período, a fatia do Brasil no comércio mundial subiu apenas de 1,08% para 1,36%.
Ora, isso se deu porque o Brasil fez exatamente o contrário da China. Depois de
oito anos de mandato e mesmo com os altos índices de popularidade do
mandatário-chefe, o atual governo manteve a ferro e fogo uma carga tributária
escorchante, vital para manter a sua estratégia de sobrevivência política que
passa pelo inchaço da esclerosada máquina pública, com a contratação
desnecessária de milhares de servidores.
Basta recorrer ao estudo da Fiesp e fazer a comparação: na China, a carga
tributária representava 18,3% do PIB em 2003, enquanto no Brasil chegava a 35,8%
naquele mesmo ano, sem sinais de que tenha decrescido nos últimos 18 meses.
Mesmo assim, o atual governo decidiu que a crucial questão da reforma tributária
ficará para o detentor do próximo mandato, ainda que as condições
macroeconômicas do País tenham melhorado nos últimos anos.
Tudo isso explica por que, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio (MDIC), a China comprou, até abril de 2010, US$ 2,5 bilhões
do Brasil, superando os EUA, antigo principal parceiro, que importaram US$ 1,6
bilhão de itens nacionais. Entre os destaques das vendas aos asiáticos estão
soja em grão, petróleo bruto, celulose e minério de ferro, embora também se
incluam exportações de aviões, máquinas e equipamentos.
Se o Brasil tivesse oferecido mais facilidades para investimentos em pesquisa e
tecnologia e carga tributária mais baixa, com certeza, a sua indústria de
eletroeletrônicos, por exemplo, não estaria passando pelas atuais dificuldades,
deixando de fabricar e empregar para importar produtos prontos, sobretudo do
Leste asiático. Pelo contrário, poderia estar vendendo a China mais produtos
sofisticados, que geram maior riqueza, seja pela qualificação da mão-de-obra,
seja pelo aumento do valor agregado. Além disso, a balança comercial entre os
dois países estaria mais próxima de um ponto de equilíbrio.
Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do
Centro de Logística de Exportação (Celex), de São Paulo-SP.
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br