Uma Ponte para o Futuro
Por Mauro Lourenço Dias
10/02/2010
Não deixa de ser uma boa notícia a promessa do governador José Serra de que até
abril, quando provavelmente ocorrerá o seu afastamento do governo do Estado para
que possa concorrer à presidência da República, haverá uma definição quanto ao
lançamento da licitação para a construção da ponte estaiada entre os bairros da
Ponta da Praia, em Santos, e Santa Rosa, em Guarujá. Mais alvissareira ainda é a
notícia de que o governo do Estado desistiu de cobrar pedágio para a passagem
por essa ponte que será erguida na entrada do Porto de Santos.
Como se sabe, em maio de 2009, quando foi anunciado o projeto da construção da
ponte, em substituição ao projetado túnel submerso, fontes do próprio governo do
Estado cogitaram a cobrança do pedágio ao mesmo preço da utilização do sistema
de balsas, que à época era de R$ 7,50. A alegação era que os recursos
arrecadados com o pedágio serviriam para bancar o custo da obra, que àquela
época estava orçada em R$ 500 milhões. Não se sabe como, mas, depois de alguns
meses, o empreendimento tornou-se menos custoso, já que hoje a verba disponível
para a construção da ponte é de R$ 400 milhões. Seja como for, a solução será
bem menos onerosa que a proposta anterior, ou seja, a construção do túnel, que,
segundo especialistas, não sairia por menos de R$ 2,5 bilhões.
Além disso, a construção do túnel poderia constituir, no futuro, um obstáculo à
livre navegação no canal do estuário porque não dá para imaginar a que
profundidade teria de ser construído para evitar possíveis colisões com
cargueiros. Como se sabe, cada vez mais, são construídos megacargueiros capazes
de transportar cargas acima de 12 mil TEUs (unidade equivalente a um contêiner
de 12 pés), que necessitam de um calado de 17 metros. Hoje, o canal de navegação
do Porto de Santos tem em média de 12 a 13 metros de profundidade, mas, depois
da obra de dragagem de aprofundamento, a partir de 2012, provavelmente, estará
nesse patamar. Hoje, muitas empresas de transporte internacional cada vez mais
preferem usar megacargueiros que podem carregar até 300 mil toneladas.
Dizem os técnicos que a profundidade do canal não pode ir além desse limite, mas
ninguém pode prever as conquistas da tecnologia. Num futuro não muito distante,
é possível que esse limite seja superado. Afinal, o maior navio petroleiro do
mundo, o Jahre Viking, tinha um calado de 24,5 metros quando carregado, altura
equivalente a um prédio de oito andares. E, se assim o construíram, é porque
havia portos capazes de recebê-lo, ainda que em plataformas localizadas quase no
alto-mar. Construído em 1976, esse navio, o mais pesado objeto móvel já
idealizado pelo homem, acaba de ser desmontado para que funcione apenas como
tanque de armazenagem.
Mas, se esse risco o Porto de Santos já não corre, o mesmo não se dá com a
altura do vão livre da projetada ponte (70 metros). Parece que a altura da ponte
não constituirá obstáculo à passagem de navios, pelo menos, a curto e médio
prazo. Afinal, o governo de Hong Kong acaba de construir uma ponte estaiada com
73,5 metros de altura acima do nível do mar, o que permitirá a entrada de
grandes navios de carga no terminal portuário de Kwai Chung.
Seja como for, aos olhos de hoje, parece que o vão livre estabelecido pelos
técnicos do governo do Estado aproxima-se do ideal, mas daqui a 50 ou 100 anos
não se sabe se continuará a sê-lo. Basta olhar para a quase centenária Ponte
Pênsil, em São Vicente, para se concluir que os técnicos que a idealizaram não
levaram (nem poderiam levar) em conta os obstáculos que traria à livre navegação
naquele trecho que é o menor entre a ilha e o continente.
Diante disso, só resta a definição do traçado para a rampa de acesso no lado de
Guarujá, já que em Santos existe consenso entre a Prefeitura e o governo do
Estado a respeito do assunto. A Prefeitura de Guarujá quer que o traçado, ao
contrário do idealizado pelos técnicos estaduais, passe pela lateral da Dow
Química, conectando-se à rodovia Cônego Domênico Rangoni, sem atrapalhar o
comércio da Avenida Ademar de Barros, no bairro de Santa Rosa. É uma proposta de
bom senso.
O importante é que a Prefeitura de Guarujá e o Estado cheguem logo a um acordo
porque a construção dessa ponte irá representar um desafogo para uma série de
operações desenvolvidas no Porto de Santos, ainda que não seja o fim dos
gargalos logísticos na área portuária. Porque há outros. E não são poucos.
Mauro Lourenço Dias é vice-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São
Paulo-SP, e professor de pós-graduação em Transportes e Logística no
Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br