Porto de Santos em 2011
Por Milton Lourenço
25/09/2009
Apesar da crise econômico-financeira mundial, que pode atrasar
algumas obras em andamento ou apenas previstas, o porto de Santos está a ponto
de dar um salto de qualidade nos próximos dois anos. Tudo isso graças aos
investimentos públicos e privados que vêm sendo feito em sua infra-estrutura.
Basta ver que estão em obras as avenidas perimetrais, que vão facilitar o acesso
aos terminais das margens direita e esquerda. Quando concluído o trabalho de
dragagem – provavelmente, ao final de 2010 –, o porto permitirá a entrada de
navios de maior calado. Isso significará um considerável aumento em sua
capacidade operacional.
Não é preciso dominar as artes da adivinhação para perceber que, a partir da
conclusão desses empreendimentos, terá de ocorrer uma mudança na forma como as
cargas chegam ao porto de Santos, sob o risco de o complexo portuário entrar em
colapso. Portanto, em termos de logística, está claro que terá de haver uma
distribuição mais equilibrada entre os modais de transporte, a fim de que não
sejam criados problemas no sistema viário da Baixada Santista e tenhamos de
enfrentar novos gargalos para o escoamento da produção nacional.
Hoje, entre os especialistas não há quem não concorde que é impossível continuar
a transportar por via rodoviária mais de 93% das cargas, como ocorre em São
Paulo, segundo dados da Secretaria de Transportes do Estado. No entanto, para
que esse número decresça, é preciso que o projeto Ferroanel deixe finalmente a
prancheta dos técnicos.
Como se sabe, o Ferroanel seria a criação de um anel ferroviário em torno da
região metropolitana da cidade de São Paulo, com um traçado coincidente em
alguns trechos, especialmente no Tramo Sul, com o do Rodoanel. Isso seria
suficiente para retirar milhares de carretas e caminhões das rodovias e dos
acessos aos terminas portuários de Santos. E facilitar também a vida de muitos
caminhoneiros que seguem de Goiás e de outros Estados do Centro-Oeste e do Norte
e Nordeste para o Porto de Santos.
Acontece, porém, que, embora o governo federal tenha destinado recursos para as
obras do Trecho Norte do Ferroanel, a contrapartida oferecida -- e que consta do
Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) -- foi considerada irrisória ou
insuficiente pela MRS Logística, que seria parceira no empreendimento. Portanto,
vamos perder pelo menos mais um ano por causa dessa falta de entendimento entre
o governo e a iniciativa privada.
Embora os problemas sejam antigos e suscitem debates pelo menos desde o início
da década de 1990, ainda agora os técnicos não chegaram a nenhum acordo sobre
vários pontos de integração desse empreendimento com o modal ferroviário. A
última proposta é a construção de um túnel subterrâneo, o “mergulhão”, que
possibilitaria a passagem das composições férreas sob a Estação da Luz.
Hoje, os trens de carga têm grandes dificuldades para atravessar São Paulo, já
que a preferência é dada aos trens de passageiros. Sem contar que os trens de
carga não podem passar livremente durante o dia, em razão do fluxo constante de
pessoas e veículos. Por isso, sua passagem fica limitada ao horário morto de uma
às cinco horas da manhã.
Ainda assim, as composições são desmembradas porque seria impossível esperar
mais de 20 minutos pela passagem do trem. Portanto, o “mergulhão” seria a saída
mais natural. Só que, a rigor, isso já deveria ter sido pensado décadas atrás,
tivéssemos mesmo homens de visão futurista à frente de nossos órgãos públicos.
Paradoxalmente, porém, às vezes, essa falta de visão, por vias tortas, acaba por
nos ajudar. Tivessem os governantes já dado uma solução para a questão da
travessia de Santos a Guarujá, com a construção de um túnel subterrâneo na
entrada do canal do estuário, talvez estivéssemos agora em palpos de aranha.
Dependendo da profundidade em que fosse construído, esse túnel poderia
constituir um obstáculo sério à entrada de navios de maior calado.
Menos mal que nada fizeram. Agora, o que se espera é que esse túnel, já previsto
pela Secretaria dos Transportes do Estado, saia do papel devidamente readequado
para atender à preocupação da Autoridade Portuária com a atual tendência de
aumento do calado dos cargueiros. Seja como for, a verdade é que a travessia por
balsa entre a Ponta da Praia, em Santos, e o bairro de Santa Rosa, em Guarujá,
será incompatível com o movimento dos grandes navios que deverão freqüentar o
porto de Santos a partir de 2011.
Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do
Centro de Logística de Exportação (Celex), de São Paulo-SP.
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br