Porto de Santos: Crescimento sob Risco
Por Milton Lourenço
06/12/2009
Estudos encomendados pela Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp)
mostram que, em menos de uma década, o Sistema Anchieta-Imigrantes estará
saturado, se não receber novos investimentos que possibilitem não só a sua
manutenção como a sua ampliação, com a construção de mais uma ou duas pistas.
Outra alternativa – o que não significa que uma opção exclua a outra – seria a
expansão da malha ferroviária que, por sinal, já apresenta gargalos tanto na
região da Baixada Santista como no Planalto paulista.
Não se pode dizer que o poder público não tenha enfrentado esse desafio que é
resultado de décadas de ineficiência e má gestão. Na verdade, tenta recuperar o
tempo perdido porque a sensação que se tem é que, mesmo com todas as obras em
andamento, há de chegar o dia em que teremos de conviver com o temível apagão
logístico.
Se listarmos o que o poder público vem fazendo nos últimos anos, com certeza,
vamos concluir que não é pouco. Enquanto verbas do governo federal garantem o
trabalho de dragagem de aprofundamento do canal de navegação e a construção das
avenidas perimetrais no Porto de Santos, o governo estadual, só para eliminar o
gargalo rodoviário na Grande São Paulo, investe mais de R$ 15 bilhões na
construção do Rodoanel e na ampliação de importantes avenidas. No Interior do
Estado, os investimentos são de R$ 2,6 bilhões na recuperação de rodovias e de
R$ 4,4 bilhões em melhoria de 13.300 quilômetros de estradas vicinais.
Tudo isso será suficiente? Eis uma pergunta que só o tempo responderá. Hoje,
infelizmente, por mais que as autoridades destinem recursos orçamentários, a
percepção que se tem é que as obras seguem a um ritmo de tartaruga manca. Já faz
20 anos que a Secretaria estadual de Transportes convocou a imprensa para
apresentar com projeções futurísticas o projeto do que seria o Rodoanel. Quer
dizer: nesse ritmo, quando estiver efetivamente concluído, o Rodoanel já estará
superado para enfrentar as necessidades.
Para se ter uma ideia mais precisa de como as obras públicas seguem a ritmo
lento, basta lembrar que o governo do Estado precisou de cinco anos para
construir a nova pista da Rodovia dos Imigrantes, liberada ao tráfego em 2002.
Portanto, nesse diapasão, provavelmente, não iremos muito longe. Até porque as
necessidades crescem a uma velocidade incontrolável.
Os números da movimentação de cargas no Porto de Santos estão aí para provar
essa
realidade. De janeiro a setembro deste ano, os terminais santistas tiveram uma
participação de 26,4% na balança comercial do País, ou seja, houve um
crescimento de 2% em relação ao mesmo período do ano passado. Isso porque, como
se sabe, o mundo viveu uma fase de crise econômica que afetou drasticamente o
comércio entre as nações. Não tivesse havido a crise global, estima-se que essa
evolução teria passado de 5%.
Em outras palavras: mesmo com crise, o Porto de Santos continuou quebrando
recordes de movimentação de cargas. Em setembro, 7,7 milhões de toneladas
passaram pelo cais santista, o que representou um crescimento de 1,7% em relação
ao mesmo mês de 2008. Foi a quarta maior marca já registrada em um único mês na
história do complexo portuário santista. Nada mal para um país que acaba de sair
da crise.
Sorte é que, há 12 anos, o governo federal decidiu entregar as linhas férreas a
concessionárias, que, nesse período, já investiram R$ 30 bilhões. Em
conseqüência disso, nos últimos 20 meses, as concessionárias inauguraram 48
terminais intermodais e estão prestes a entregar o primeiro terminal
aeroferroviário em Viracopos. Segundo dados da Associação Nacional dos
Transportadores Ferroviários (ANFT), o transporte intermodal cresceu 75 vezes
desde o início do programa de concessões.
Já o governo federal, desde 1997, destinou apenas R$ 912 milhões para a
infraestrutura ferroviária, setor que é de sua responsabilidade, embora as
concessionárias, segundo a ANFT, tenham pago R$ 3,7 bilhões pelas concessões.
Entre os investimentos públicos, estão recursos para a abertura de uma linha
entre Santos e Cajati, no Litoral Sul, e a construção de um túnel de um
quilômetro, o chamado “mergulhão”, sob a Estação da Luz, em São Paulo, que vai
acabar com o atual conflito entre o fluxo de cargas e o de passageiros. Sem
contar o Tramo Sul do Ferroanel, que os governos federal e estadual prometem
entregar até o final de 2010.
Os estudos da Codesp prevêem uma movimentação de 112 milhões de toneladas em
2019, contra 81 milhões registrados em 2008. Um número conservador porque, se
não houver novas crises globais, espera-se que a movimentação de 2008 seja
duplicada em menos de dez anos. Nesse caso, a infraestrutura estará pronta para
enfrentar essa necessidade? Eis aqui uma questão angustiante com a qual teremos
de conviver nos próximos anos.
Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do
Centro de Logística de Exportação (Celex), de São Paulo-SP.
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br