Portos Privados
Por Mauro Lourenço Dias
25/09/2009
A Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp) começou, neste ano, a debater
um novo modelo de arrendamento portuário que pretende contemplar aspectos que
não foram previstos em contratos antigos e deixaram de fora negócios de que
participaram os terminais e que não foram captados pelas administrações
portuárias.
Como se sabe, há hoje grandes terminais que foram modelados na década de 1990,
quando o Brasil ainda dava os primeiros passos nesse segmento, depois da
aplicação da Lei de Modernização dos Portos (nº 8.630/93). Sem contar que há
contratos de arrendamento de terminais de contêineres que se reportam a uma
legislação anterior e outros que ainda seguem um modelo que não reflete a atual
conjuntura do negócio portuário.
O critério de arrendamento atual remunera as autoridades portuárias por metro
quadrado e por uma expectativa mínima de movimentação de cargas garantida em
contrato. Segundo a Codesp, o novo modelo deve contemplar uma expectativa mínima
de movimentação de carga que reflita a realidade do negócio, além dos serviços
acessórios, que incluem a pesagem da carga, abertura, ovação, desova, lavagem,
inspeção, troca de lacre e, eventualmente, guarda do contêiner e até mesmo
pontos de armazenamento. Todos esses negócios não foram captados nos contratos
anteriores.
Para este ano, estão previstas concorrências públicas para arrendamento de três
grandes terminais: o da Cargill, o Terminal de Exportação de Veículos (TEV) e o
da Vopak, na margem esquerda do porto. E a Autoridade Portuária pretende dar
início à elaboração dos projetos para os terminais de Conceiçãozinha e Prainha,
também na margem esquerda. A exemplo do modelo de arrendamento, a tarifa
portuária será motivo de estudo a ser desenvolvido neste ano, abrangendo a
valorização de suas taxas, com o objetivo de adequá-las à realidade.
A par disso, o governo federal pretende estabelecer novas regras com o objetivo
de criar um regime de concessões à iniciativa privada para a construção e
operação de novos portos. Tudo isso é necessário não só para estabelecer marcos
regulatórios que ofereçam segurança e atraiam investidores nacionais e
estrangeiros como para adequar a infra-estrutura do País às operações dos
modernos supercargueiros que cumprem as rotas internacionais.
Seja como for, é indiscutível que o modelo estatal que foi adotado por largas
décadas mostrou-se incapaz de acompanhar as transformações tecnológicas que
alteraram os métodos de trabalho para o embarque e desembarque de mercadorias. E
que a decisão de transferir para a iniciativa privada a tarefa de movimentar e
armazenar cargas, ainda que tenha sido adotada tardiamente, foi o que de melhor
poderia ter acontecido para evitar o sucateamento da infra-estrutura portuária.
Isso, porém, não significa que não tenham ocorrido muitas imperfeições nas
regras da privatização adotadas até aqui. E que o governo federal, por um vezo
estatizante, não tenha acelerado tanto como devia o processo de privatização de
muitas atividades que o mundo moderno já não admite que continuem nas mãos do
Estado. Entre essas deficiências na questão portuária, podemos apontar as
denúncias de favorecimento ilícito que correm na Justiça e a falta de
participação dos municípios no planejamento da ocupação das zonas portuárias e
na apuração dos dividendos tributários que lhes cabem.
Com a criação da Secretaria Especial dos Portos (SEP), já se deu um grande passo
no sentido de modernizar a administração portuária no País, mas não se pode
dizer que as estatais portuárias tenham ficado imunes à influência política na
nomeação de funcionários para cargos bem remunerados que ficam sempre devedores
da contrapartida em favor de interesses eleitorais.
Por isso, o que se espera, além da modernização dos contratos de arrendamento e
da adoção de um regime específico de concessões à iniciativa privada para a
criação de novos portos, é que o governo estabeleça também regras mais rígidas
para o preenchimento de cargos, a partir do critério da comprovada competência
profissional. A sociedade brasileira está madura e não admite mais cobrir
prejuízos causados por más administrações nas empresas estatais.
Mauro Lourenço Dias é vice-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São
Paulo-SP, e professor de pós-graduação em Transportes e Logística no
Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br