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Rumo ao Mercado Chinês

Por Milton Lourenço

25/09/2009



O comércio exterior brasileiro encerrou o primeiro semestre de 2009 com um quadro de recuperação lenta e gradual que, espera-se, deve se confirmar ao longo deste segundo semestre, especialmente na área de produtos industrializados. Em comparação com o primeiro semestre de 2008, porém, esses produtos tiveram queda expressiva: em 2008, o ápice da média diária das exportações de manufaturados deu-se em maio, com US$ 395 milhões, enquanto em 2009 a melhor marca foi registrada em fevereiro com US$ 275 milhões.
A marca mais baixa deu-se em maio de 2009, com US$ 255 milhões, mas junho já registrou um crescimento discreto (US$ 258 milhões), o que foi interpretado pelos analistas como o primeiro sinal de recuperação. O que não se sabe é se esse sinal é resultado dos efeitos dos pacotes fiscais adotados pelos governos de vários países ou se, de fato, constitui um crescimento sustentado. De concreto, o que se tem é que, no primeiro semestre, o Brasil vendeu 38% menos carros, 26% menos aviões, 28% menos calçados e 37% menos laminados de ferro e aço.
Seja como for, o que há pela frente é um longo trabalho de recuperação de mercados e a abertura de outros, levando-se em conta que os negócios fora do País foram retomados, o câmbio voltou a se estabilizar e os estoques globais acumulados acabaram. Portanto, esta é a hora de sair a campo para vender.
Um mercado que está aberto e à espera de bons vendedores é a China, economia responsável por um corrente de comércio global superior a US$ 1 trilhão. Para se ter uma idéia da imensidão de um mercado que se pode ocupar, basta lembrar que, em 2008, o Brasil exportou US$ 10,7 bilhões para a China.
É verdade que as exportações brasileiras vêm perdendo espaço para os produtos chineses nos Estados Unidos e na Argentina, os dois principais mercados para os manufaturados do Brasil, mas, em compensação, graças às compras de commodities pela China, vários países da América Latina têm obtido fôlego para adquirir mercadorias das indústrias brasileiras.
Além disso, a China, que foi pouco afetada pela crise financeira internacional – tanto que o seu Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer neste ano cerca de 10%, um número fantástico –, continua consumindo cada vez mais, em função da melhoria do padrão de vida de extensas parcelas de uma população estimada em mais de um bilhão de habitantes. O que falta é o Brasil se organizar e ocupar melhor os espaços que se abrem no mercado chinês que, de modo geral, sempre aceitou bem os produtos brasileiros.
O que pesa contra o produto brasileiro é o preço com que chega ao mercado chinês, enfrentando uma competição desigual de outros países asiáticos. A questão principal é que, enquanto a carga tributária que pesa sobre o produto chinês – e a escala é semelhante em outros países da Ásia – é de 15% do PIB, no Brasil essa proporção passa de 35%. Sem contar os custos causados por uma infraestrutura logística deficiente e uma burocracia aduaneira que só contribuem para que o produto nacional perca competitividade no mercado externo.
Mesmo assim, vale a pena procurar espaço no mercado chinês que, em linhas gerais, absorve tudo e em escala gigantesca, especialmente produtos do setor alimentício, que é o de maior potencial.
É de lembrar que, há pouco mais de um ano, o governo brasileiro lançou o programa Agenda China, apresentando como meta alcançar US$ 30 bilhões em exportações para aquele país até 2010. Em 2007, as vendas brasileiras para o mercado chinês somaram US$ 10 bilhões e, em 2008, cresceram menos de 10%, chegando a US$ 10,7 bilhões Neste ano, com a crise financeira internacional, está claro que aquela meta ainda não passa de miragem. A culpa, porém, não é dos chineses. O Brasil é que precisa mudar para que o seu custo interno de produção e exportação não pese tanto no preço final do produto a ser vendido lá fora.

Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Centro de Logística de Exportação (Celex), de São Paulo-SP.

E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br