Todo Cuidado é Pouco
Por Milton Lourenço
18/01/2011
A diplomacia brasileira precisa estar atenta para a campanha que vem sendo
feita, nos últimos tempos, pelos países ricos no sentido de exigir das nações
emergentes – leia-se Brasil, China e Índia – maiores concessões para que possam
reduzir os déficits que acumularam. Como se sabe, tanto EUA como a maioria dos
países da União Europeia estão comprometidos por imensas dívidas, tanto do
governo quanto do setor privado, como resultado de seus próprios erros de
política econômica.
Ninguém que advoga o pensamento liberal pode ser contra a abertura do mercado
nacional, mas isso tem hora certa para ocorrer. E não pode ser feito só porque o
mundo rico passa hoje por dificuldades e precisa desovar sua produção para
diminuir seus déficits comerciais e reduzir os níveis do desemprego em seus
territórios. Por isso, não faz sentido hoje, diante das circunstâncias, o Brasil
reduzir suas tarifas de importação como reivindicam as nações desenvolvidas. Até
porque a valorização do real neutralizou ou anulou a proteção que as tarifas
asseguravam.
Além disso, se não sofreu solavancos desastrosos em função da crise financeira
global eclodida há pouco mais de dois anos, o Brasil não vive uma situação tão
confortável assim que lhe permita fazer sacrifícios ou correr maiores riscos
para ajudar os países ricos a saírem de suas dificuldades.
Na verdade, os problemas brasileiros não são poucos, ainda que a propaganda
oficial tenha se empenhado em mostrar o País como uma ilha de prosperidade em
meio a um mundo em convulsão. Basta ver que o Brasil, antes da crise global,
acumulava um superávit de US$ 46 bilhões e, hoje, esse valor caiu para US$ 14,5
bilhões. Tudo em função de políticas fiscais e de câmbio de outras nações que
acabaram por provocar a valorização do real.
Com a valorização da moeda, as importações dispararam a ponto de o País hoje
enfrentar a ameaça de desindustrialização. Segundo dados do Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), no setor industrial, o
superávit de 2006 de US$ 14 bilhões virou em 2010 um déficit de US$ 35,3
bilhões. A sorte é que, também em função da conjuntura externa, as exportações
agrícolas passaram de US$ 32 bilhões em 2006 para US$ 50 bilhões em 2010, como
resultado da elevação dos preços das commodities. Foi o que permitiu ao País
manter o equilíbrio em suas contas externas.
Sem contar que, a rigor, o Brasil já deu uma contribuição significativa para
ajudar os EUA a sair do buraco. O País em 2006 exibia no setor industrial um
superávit de US$ 7 bilhões em relação aos EUA, que se transformou em déficit de
US$ 9 bilhões em 2010. Segundo dados do MDIC, as exportações industriais para os
EUA caíram 40%, enquanto as importações cresceram 51%. É isto que precisa ser
mostrado, sem que seja necessário criar qualquer contencioso com aquele país.
Além disso, o Brasil precisa estar preparado para um cenário menos favorável no
plano internacional, principalmente se os EUA, acossados pelo baixo crescimento,
partirem para a adoção de uma política mais dura, como sobretaxar os produtos
chineses, o que em contrapartida poderia provocar retaliações protecionistas por
parte da China, numa escalada sem precedentes que afetaria todo o comércio
global. Portanto, nos dias de hoje, todo cuidado é pouco.
Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do
Centro de Logística de Exportação (Celex), de São Paulo-SP.
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br