CRM: sem estratégia, o risco é de insucesso!
Chris Jacob
Há cerca de duas décadas surgiu o conceito do CRM – Customer
Relationship Management – ou Gestão de Relacionamento com Clientes,
vindo a decolar no início dos anos 90 nos Estados Unidos – Meca do
Marketing Mundial. No Brasil, o conceito surgiu com mais ênfase no final
dos anos 90 e pairou nos meios corporativos, quase de forma metafísica,
ou seja, ninguém sabia exatamente o que era, mas todos o queriam de
alguma forma, porque a promessa era de incremento de receitas, de
lucros, de vendas! Até ai, fantástico! Mas já estamos em 2010, com
centenas de “implementações” do CRM e o milagre não aconteceu. Por que
será?
Em primeiro lugar, o CRM é encarado como uma ferramenta, um software que
é definido pela área de tecnologia e que normalmente obedece aos
“critérios” da alta gestão das empresas. A alta cúpula sente-se
pressionada como se as corporações sem uma ferramenta de CRM fossem
fechar as portas em poucos anos ou abrirem suas portas para visitações à
sua obsolescência. Os gestores de Marketing e Vendas sentem-se
desvalorizados se a empresa não adquirir um software de CRM (notem que
estamos falando em software!) e muitas vezes justificam os resultados
menos favoráveis aos dirigentes, pela bendita falta desse “santo
milagreiro”. A decisão está tomada: “Vamos comprar um CRM e vamos
implantá-lo a toque de caixa e de preferência sem gastar muito”,
proclama a alta cúpula.
O responsável pela área de Tecnologia da Informação é acionado, O
Diretor de Marketing e/ou de Vendas é convocado e todos saem à caça de
fornecedores da milagrosa ferramenta! Pré-diagnósticos técnicos são
feitos, apresentações são agendadas, o pessoal de infra-estrutura se
descabela, porque a tal ferramentazinha exige uma série de recursos
adicionais e inexistentes e os usuários finais, essas criaturas que irão
operar a tal coisa, já se sentem incomodados com o aumento de tarefas
que exige um novo software, além de céticos quanto ao sucesso da nova
empreitada. Chegam propostas técnico-comerciais de hardware e software,
cronogramas de implantação, agenda de treinamentos e a direção não
entende o porque de tanta demora: “Cadê o meu CRM? Queremos vender mais,
queremos mais clientes e vocês ficam ai analisando essa papelada durante
meses?”. E os papéis vão para aprovação dos diretores: ” O quê!?,
Quanto!? Ficaram malucos? Não estamos vendendo tão bem e ainda querem
que gastemos tudo isso para vender mais?”. Enfim, depois de idas e
vindas, passados alguns meses, o fornecedor é escolhido e dá-se início à
odisséia da implementação do CRM.
O ponto mágico está no levantamento de processos e na sua tradução para
a nova ferramenta. Mapeiam-se os processos atuais de empresa que são
transferidos na integra, ou seja, sem redefinições, para o software. Os
técnicos saem em busca de bases de informações de clientes e muitas
vezes simplesmente não encontram nada! Ou melhor, a maioria das
informações está na cabeça dos vendedores ou em cadernos de anotações e,
com muita sorte, encontram um planilhão em Excel contendo as preciosas
“informações”, mas que também não são confiáveis e passíveis de
“interfaceamento” com o CRM. Paciência…é só um detalhe, porque a partir
de agora será criada a base corporativa de dados de clientes da
organização! Parece pomposo, mas inviável na prática. Os consultores que
estão implantando o CRM começam a sinalizar atrasos no cronograma e por
fim, “detalhes” são deixados de lado para que os custos com o projeto
não se alterem (o que comumente ocorre). Bom, mas precisamos pelo menos
dos cadastros principais para o software funcionar, dizem os
consultores. “Não temos nada”, dizem os clientes. Por fim, o impasse é
resolvido e dá-se um jeitinho. Digitadores entram em ação e saem catando
informações etéreas das cabeças e dos cadernos dos vendedores. Depois de
tantos outros desafios, inclusive da dificuldade em reunir todos os
usuários para o treinamento final, porque afinal a maioria deles está na
rua vendendo e a alta direção não quer que percam um minuto com outras
atividades que não sejam vendas, o CRM é implantado! Ufa! “Demorou, mas
funcionou” – clamam todos! E a alta cúpula vibra com a idéia de que a
partir de amanhã, o faturamento vai “dobrar” com o CRM! Ledo
engano…Nesse cenário, o CRM não será um Investimento, mas um Gasto.
Iniciemos com as justificativas:
1. CRM não é ferramenta, em primeiro lugar, não é um software, mas sim
uma estratégia de negócios;
2. Processos ineficientes apenas são transferidos do “papel” para a
ferramenta sem a preocupação de redesenhá-los com base em diagnósticos
de consultores de negócios e não de tecnologia;
3. O CRM sendo uma estratégia de negócios, possui como pré-requisito,
que a empresa tenha bem embasada suas estratégias de vendas e,
principalmente, de metas de relacionamentos com os seus clientes;
4. A “estratégia” de implemantação ocorre com base nas necessidades da
ferramenta e não da empresa e, principalmente, dos clientes!;
5. A Alta Gestão não é bem informada sobre o real conceito do CRM,
inspirada pela idéia de que bastará apertar alguns botões e gráficos
coloridos com sensível aumento das vendas aparecerão na sua frente;
6. Os principais gestores se apegam à idéia da “santa” ferramenta e
subjulgam o planejamento estratégico e de marketing que são os
requisitos fundamentais para o sucesso dessa nova empreitada;
7. Os principais usuários, mediante esse quadro, tornam-se reticentes
quanto a utilização do tal software e se declaram vitoriosos: foram os
únicos que sabiam que esse “troço” não daria certo!
Bom, poderíamos aqui enumerar uma série de “justificativas” para o
insucesso da maioria das implantações de CRM, mas creio que os descritos
já falam por si só. A maioria pode ler esse artigo e achar que eu estou
querendo complicar um negócio tão simples quanto o CRM. Coisas de
consultor…que é o que sou! Porém, nesses 20 anos de profissão, sendo 5
em consultoria de Planejamento Estratégico e Marketing, com foco em CRM,
não encontrei um cenário muito diferente deste que estou descrevendo.
Acho frustante até e me coloco na pele dos dirigentes de empresas que
anseiam ganhos espetaculares com o CRM e vêem seus planos cairem por
terra abaixo! Para aqueles que já implantaram o CRM e o insucesso foi o
resultado, talvez devam começar pelo caminho mais certo: o do
Planejamento! Para aqueles que ainda não implementaram o CRM, talvez ao
lerem este artigo, reflitam sobre um aspecto fundamental: “Sua empresa
está preparada para incorporar o CRM?”. Se a resposta for “ainda não”, é
porque os requisitos básicos não podem ser atendidos e precisam antes
ser bem definidos para que a sua empresa entre para o restrito “rol” das
implementações CRM de sucesso! Espero ter ajudado.