Competição Saudável
Por Jerônimo Mendes
19/01/2009
O mundo é uma sucessão de cobranças e responsabilidades
desde o momento em que ensaiamos os primeiros passos e,
da mesma forma, ouvimos os primeiros “nãos”. Com o
passar dos anos e o aumento das responsabilidades
típicas de cada fase da vida, somos “moldados a ferro e
marteladas” como dizia Emerson, o grande pensador
americano, ainda que a contragosto.
Invariavelmente, desde cedo aprendemos que o mundo é um
campo de batalhas e se dependesse apenas da vontade dos
pais seríamos os melhores, os mais fortes, os mais
inteligentes, os mais bem-sucedidos. Alias, ainda que
isso não seja verdade, é assim que eles nos tratam até o
fim, a despeito de todos os desgostos ou decepções que
os filhos possam provocar.
De fato, o mundo é realmente um campo de batalhas onde o
mais forte, o mais inteligente, o mais rápido, o mais
estudioso ou ainda o mais esperto nem sempre se
sobressai. Entretanto, independentemente do que nos
acontece, sempre buscamos um lugar ao sol, uma forma de
nos destacar, de viver dignamente, de dar um sentido à
nossa vida, um norte para as nossas ações e, muitas
vezes, diferentes formas de agradar mais aos outros do
que a nós mesmos.
O mundo conta hoje com aproximadamente 6,3 bilhões de
pessoas. Em 2050 seremos em torno de 9 bilhões de
pessoas, segundo os especialistas, todos ávidos por
emprego, segurança, saúde, sentido de realização e,
principalmente, paz de espírito, sem contar ainda outras
necessidades como água, comida, sexo e moradia. Os
otimistas diriam: Uau! Mais 3 bilhões de bocas para
alimentar, roupas para vender, sapatos para fabricar. Os
pessimistas diriam: mais 3 bilhões de currículos na
praça para tomar o meu emprego.
Considerando a abundância e ao mesmo tempo a escassez de
recursos, vivemos uma permanente competição. Em função
de tudo aquilo que a mídia nos impõe, do que a família
nos cobra e do que a sociedade espera de nós, o básico
não basta e para conseguir mais do que o básico,
precisamos de mais dinheiro, de mais estudo, de mais
reconhecimento, de mais tempo, de levar mais vantagens,
o que acirra a competição.
Apesar de todos os revezes, conseguimos sair do chão e
podemos até nos orgulhar um pouco, entretanto, nossa
mente é traidora e a concorrência é o nosso fantasma.
Tudo o que amealhamos parece pouco diante do que ainda é
possível conseguir ou se comparado ao que os nossos
amigos, irmãos, vizinhos, colegas de trabalho e
concorrentes conseguiram em menos tempo do que nós. Como
são fantásticas aquelas pessoas que não conhecemos muito
bem, diria Milôr Fernandes.
Competição é isso, mais de 6 bilhões de pessoas querendo
o mesmo que eu e você: amor, dinheiro, bens materiais,
cargos de prestígio, salários milionários, comida,
saúde, paz de espírito e reconhecimento. Alguns desejam
mais do que uma posição de respeito na sociedade; outros
desejam apenas uma sociedade que os respeitem como seres
humanos.
Na medida em que mundo evolui, a competição torna-se
implacável, dura, chega a ser insana. A tristeza da
demissão alheia é ao mesmo tempo a alegria da nossa
promoção. Na maioria das vezes não sabemos por que
competimos, mas a corrente nos leva e como nossa base
espiritual é vacilante, nossa convicção oscila entre a
verdade e a opinião alheia. Somos reféns dos nossos
próprios desejos ilimitados. Nunca conseguimos domá-los,
pois eles sempre nos exigem mais, motivo pelo qual
tentamos ir além da nossa capacidade.
Tudo aquilo que fazemos apenas para competir e mostrar
aos outros que somos melhores é verdadeiramente inútil.
Competição saudável é aquela que não nos afasta da
família e dos amigos, que não é construída diante da
desgraça alheia, que não sacrifica a nossa liberdade de
expressão e de pensamento, que não expõe os nossos
instintos mais primitivos. Por fim, lembre-se, se o sol
nasceu para todos, a conquista de um lugar diante dele
não significa que os demais estão condenados à
escuridão. Competir sim, perder a ternura e o respeito
pela dignidade alheia, jamais. Pense nisso e seja feliz!
Jerônimo Mendes é Administrador, Consultor e Palestrante
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark) e Benditas
Muletas (Vozes)
Mestre em Organizações e Desenvolvimento Local pela
UNIFAE