Dharma Marketing: Novo modelo de
Marketing Relacional
Por Paulo Vieira de Castro
13/03/2007
Para os budistas, Dharma é o que guia a mente. O Dharma
Marketing pretende estabelecer condições, para que as
necessárias transformações ao nível espiritual possam
ser empreendidas com vista a uma aproximação sustentável
de todos os públicos relacionais. A melhor maneira de o
conseguir, será assegurar que as organizações
compreendam que esta mudança passa, obrigatoriamente,
pela abertura ao exemplo da gestão empreendida no
Oriente, ou seja, analisando o sucesso das empresas
asiáticas, onde a extensão ascética do empreendedorismo
é afirmada, desde há séculos, com um forte recurso a
valores espirituais.
O real poderá ser entendido como o que é percebido
individualmente. Para os marketeers esta é uma máxima
importantíssima, uma vez que o marketing não é uma
batalha de produtos e serviços mas, tão somente, de
percepções. Assim, o melhor marketing é o que chega mais
intimamente à mente do consumidor.
No Dharma Marketing agimos ao nível do conflito
psicológico anterior à vontade humana, dado que, cada
vez mais, procuramos satisfazer preferencialmente as
necessidades de ordem anímica (inconscientes),
concentrando-nos no que é anterior à intencionalidade no
Homem, ou seja, no que é antecedente às necessidades e à
motivação. A pertinência de tão desejada intervenção
dá-se por força de trabalharmos ao nível da mais
profunda dimensão do psiquismo humano, convertendo-se o
Dharma Marketing numa ferramenta fundamental para a
correta caracterização relacional e para a proximidade
entre players. Lembramos que o fator atitude, ponto
crucial da competência organizacional, não depende
exclusivamente de um conjunto de formalidades ou regras,
existindo um grupo alargado de impulsos inconscientes
que constantemente interferem nas decisões racionais.
Como resposta às variações comportamentais resultantes
do referido desajuste, torna-se necessário agir ao nível
espiritual. A prática espiritual em ambiente
organizacional visa, ainda, o aperfeiçoamento do
princípio transcendente, acreditando-se que este
constitui, para as empresas, um diferencial não
espontâneo, a ser conquistado e desenvolvido pelo
aperfeiçoamento da dimensão holística.
As questões sociais e humanas têm merecido a atenção por
parte de algumas das organizações mais responsáveis.
Contudo, a dimensão espiritual do Homem, vista como a
senda da prosperidade ética, vem sendo esquecida, porque
é erradamente associada à perspectiva religiosa. Deste
modo, provoca o distanciamento progressivo da questão do
auto-conhecimento no ambiente empresarial.
Para Jair Moggi, as organizações são grandes palcos
kármicos, onde as pessoas se encontram para aprender
umas com as outras, buscando, quanto a nós, o patrocínio
das condições necessárias para avivar as capacidades
perceptivas naturais da mente. Só deste modo poderemos
ter públicos relacionais mais centrados, relativamente à
forma como sentem, pensam, agem e, obviamente, quanto às
consequências de tudo isso. Para que tal aconteça, os
homens e mulheres que dirigem as empresas devem ter a
capacidade de realizar transformações em si próprios,
projetando-as em todos os seus públicos. Esta
preocupação, por sua vez, deverá ser incorporada na
missão institucional de organizações públicas e
privadas. Passar esta mensagem para o meio empresarial,
será o maior desafio às consciências daqueles que
trabalham na área do marketing de forma consciente,
aportando confiança, contribuindo para que a lógica de
mercado, a prosperidade humana, social e espiritual
sejam dimensões ativas, complementares e
interdependentes, visando o desenvolvimento das empresas
como movimento integrado e reciprocamente empenhado.
Thomas Moore alerta para a necessidade de assumir outros
vínculos, com o desígnio de permitir a expressão da
intencionalidade e propósitos da existência humana. Para
isso, talvez seja necessário abrir mão de antigos
valores e expectativas. Para aqueles que colocam a
racionalidade à frente de qualquer fundamento
organizacional, deixamos uma especial chamada de
atenção. Elster refere-se, a este propósito, ao lugar
que é reservado à razão na sociedade ocidental, onde o
Homem em vez de admitir os limites da razão se centra,
tantas vezes exclusivamente, no exercício dessa mesma
razão. Deste modo, confunde, erradamente, razão com a
existência humana. Note-se que, no nosso entender, o que
resiste no Homem é o espiritual, enquanto a verdade que
a razão sustenta é frequentemente questionada no tempo.
Partindo do princípio que em todas as relações o Homem
procura uma dimensão exclusiva, cabe ao Dharma Marketing
aumentar a transparência, remover obstáculos,
facilitando a passagem aos que procuram o nexo que
assiste à experiência empresarial. Desta forma, a via
espiritual funcionará em sinal diverso à americanização
das organizações, assente na motivação individual e na
auto-estima.
A exagerada ênfase que a psicologia moderna dá à
motivação com base em indicadores de auto-estima teve o
seu ponto mais alto nos EUA durante os anos oitenta, com
a Geração do Eu e os yuppies. Muito embora este seja um
estado interior desejável, como a própria satisfação,
corremos o risco de, ao ter um ego centrado em si mesmo,
este esforço nem sempre resultar em valor para as
empresas. A efabulação do Eu passou mesmo as fronteiras
do interno das organizações, transmitindo ao mercado
conceitos do tipo “the one and the only” ou “porque só
você merece”, … Este elogio é a expressão extrema de uma
psicologia individualista, onde a vaidade daquele que
tudo julga merecer, ensombra a ascensão humana nas suas
práticas mais sensíveis e conscientes. Esperamos que das
mudanças aqui propostas resulte a melhoria efetiva da
sustentabilidade das condições de reciprocidade e
aceitação de todos os públicos. Ao invés da motivação
individual, deveremos ir pela necessidade de
pertencermos a um grupo de agentes motivados, em torno
de uma missão institucional transparente e unificadora.
É evidente que as empresas deverão estar focadas em
resultados estratégicos, dependendo de hábeis
negociadores, criativos, empreendedores, que saibam
trabalhar sob pressão... Mas será que isso é possível na
ausência da consciência de si mesmo?
A procura da transcendência, só poderá existir como
resultado de um permanente e efetiva dinâmica integrada
e reciprocamente complementar, da evolução econômica,
humana, social, se acompanhada de mudanças ao nível
espiritual. Assim, o reforço da competitividade
aparece-nos como a inteligência que advém da busca da
iluminação interior.
Para o Dharma Marketing, o compromisso entre as empresas
e todos aqueles com quem estas se relacionam, passa pelo
efeito de proximidade real. Procura-se, em especial
através dos recursos humanos mais espiritualizados, um
impacto significativo nos negócios, ou, pelo menos, dar
às suas competências relacionais conotações mais amplas,
no que respeita à empatia para consigo próprios e os
outros. Esta mudança é um elemento de distinção na
construção de uma nova forma de pensar as organizações
para o terceiro milênio.
Paulo Vieira de Castro é mentor do modelo “Marketing de
Proximidade Real”, consultor de empresas, Diretor do
Centro de Estudos Aplicados em Marketing do Instituto
Superior de Administração e Gestão do Porto – Portugal.
E-mail geral@paulovieiradecastro.com