Forças de Coalizão
Por Jerônimo Mendes
25/02/2009
Imagine que você faz parte de uma empresa muito bem
estruturada em termos de organização, não importa o
tamanho, dividida em diferentes setores ou
departamentos, tais como: financeiro, recursos humanos,
contabilidade, vendas, logística, produção, marketing e
assim por diante.
De uma forma ou de outra, as empresas sempre estão
divididas por área de especialização ou interesse e
existe uma enorme tendência, embora discreta, de
competição entre elas, geralmente estimulada pela
ambição incontrolável do líder, se é que cabe o nobre
título a ele. Em alguns casos, o líder nem fica sabendo
da movimentação, mas as forças de coalizão conspiram em
meio ao silêncio dos bastidores, ao barulho do chão de
fábrica e à descontração do happy hour.
De maneira geral, o comercial não se dá com a produção,
o financeiro odeia a contabilidade, o marketing não faz
o que comercial imagina que pode ser feito, a produção
nunca produz exatamente o que o comercial vende, o
comercial nunca vende o que a produção produz e, por
fim, a logística não sabe a razão de o comercial se
comprometer tanto com algo que ela não pode cumprir. Em
resumo, a outra parte nunca faz aquilo que o que você
precisa.
Na prática, a sua organização é formada por um bando de
alienados que visam o interesse comum, dentro do
possível, entretanto, sem se descuidar dos seus
interesses particulares que, em princípio, estão acima
de tudo. Assim sendo, forma-se um ambiente propício para
a criação das forças de coalizão.
Quando algo parecido ocorre, há um desequilíbrio no
comprometimento, na motivação e na sinergia entre as
partes. Alguém vai deixar de fazer o que deve ser feito
considerando que a outra parte conspira por um caminho
diferente. As consequências são inevitáveis. A sinergia
vai se desintegrando e a mudança de foco provoca um
desperdício de energia, vital para a sobrevivência das
empresas.
As forças de coalizão se formam quando os interesses
comuns estão em jogo, não necessariamente dentro do
mesmo setor, área ou departamento. Basta existir uma
leve sintonia entre os interesses que caminham, em
geral, de maneira contrária a uma determinada política
da empresa, uma estratégia ou até mesmo um determinado
estilo de gerenciamento.
Nesse sentido, as forças de coalizão são extremamente
prejudiciais para as organizações. Comumente, são
movidas por interesses pessoais, nunca por interesses
coletivos. A base das forças de coalizão são as queixas
improdutivas, ou seja, aquelas que conduzem a juízes
pessoais negativos e geram rancor e inimizade entre as
facções. Em muitos casos, embora busquem a simpatia e o
apoio da massa, buscam vingança e destruição dos
oponentes.
Na realidade, o discurso do espírito de equipe é muito
bonito na teoria. Na prática, somos aquele gene egoísta
bem definido por Richard Dawkins, cientista
norte-americano, que não se furta em adotar uma postura
competitiva, disfarçada de sorrisos e de hipocrisia. O
partido que nos interessa é o da situação, portanto, o
que está no poder temporariamente.
A conspiração é o principal instrumento das forças de
coalizão. Conspirar significa reunir-se às escondidas,
conduzir a juízos negativos, estimular a criação de
facções, promover o fortalecimento da organização
informal através da fofoca, da discórdia e da rivalidade
entre as facções, puxar o tapete alheio, desestabilizar
a hierarquia formalmente constituída.
Não é fácil identificar a existência das forças de
coalizão, tampouco destruí-las. Elas fazem parte da
cultura organizacional e, como o poder alterna de acordo
com o ambiente político e econômico das empresas, elas
também mudam de mãos rapidamente.
Para evitar a influência negativa das forças de
coalizão, eis aqui algumas medidas que podem ser tomadas
antecipadamente, sob pena de a organização se
transformar num campo de batalhas onde os únicos
interesses envolvidos são os daqueles que,
possivelmente, não terão sobrevivido depois de a guerra
acabar. Pense nisso e seja feliz!
1. Ao tomar conhecimento da sua existência, procure
avaliar a extensão e o poder de influência da força de
coalizão; até onde ela é positiva ou negativa e se está
percebendo corretamente a sua existência;
2. Coloque o peixe sobre a mesa, como se diz na Sicilia.
Depois de um tempo, ele começa a cheirar mal e você é
obrigado a limpá-lo, antes que apodreça. Avalie as
razões do descontentamento, dos interesses envolvidos e
as chances de solucioná-los;
3. Utilize o diálogo aberto e transparente; se isto não
for suficiente para quebrar a resistência, elimine-a;
geralmente, em qualquer força de coalizão, há sempre um
ou dois que influenciam, o resto se submete; é como
eliminar uma cobra, acerte a cabeça e o corpo padece;
4. Se houver acordo entre as partes, reposicione-os no
seu devido lugar, dê-lhes autonomia e responsabilize-os
pelos acontecimentos; invoque o espírito de equipe e não
tolere reincidência, caso contrário, você nunca terá o
domínio sobre elas.
Jerônimo Mendes é Administrador, Consultor e Palestrante
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark) e Benditas
Muletas (Vozes)
Mestre em Organizações e Desenvolvimento Local pela
UNIFAE