O que os Deuses Gregos Sempre Souberam a Respeito de Criatividade
Por Gisela Kassoy
20/10/2007
Não é incomum comparar-se a criatividade com uma planta que brota da
terra. Mais freqüente ainda é a imagem da lampadinha, quase um ícone
para ilustrar uma idéia. Idéias e inovações brilham, são fáceis de
serem percebidas. Mas como chegar a elas?
Há um lado que as pessoas e as organizações deveriam conhecer melhor
que é, por enquanto, o lado misterioso do processo criativo.
O Mundo Subterrâneo
Uma semente que brota vem de um Mundo Subterrâneo. Na mitologia
grega este é o Mundo de Hades, deus dos Mortos, do inconsciente, e
de tudo o que se processa dentro de nós de maneira nebulosa ou
incerta.
Podemos dizer que o reino de Hades simboliza o inconsciente, tanto o
individual quanto o coletivo. O Subterrâneo de nossas mentes é a
moradia do pensamento, da memória, de nossos anseios e receios.
Imagino que é neste mundo que a incubação, a intuição e as sinapses
criativas acontecem antes de se tornarem visíveis.
O insight - a compreensão profunda de uma situação - ou o "a-há" de
uma idéia mostra-nos quase fisicamente esse pulo de dentro para fora
de nossas mentes.
Mas o mundo de fora é outro.
O Mundo da Luz
O Mundo da Luz é o reino do brilho e do poder. É também o domínio de
Zeus,
deus supremo do Olimpo. A construção de seu reinado foi feita por
meio de conquistas, visão estratégica e alianças.
Psicologicamente, o domínio do céu representa o consciente, o
raciocínio lógico, a supremacia e a visão panorâmica.
Zeus, portanto, simboliza o sucesso e o controle. Pessoas que vivem
esse arquétipo são estrategistas, sabem administrar riscos e tendem
a ser vitoriosos.
Assim são percebidas as idéias, as oportunidades e as inovações. Há
um lado da criatividade que brilha, mas que não existiria sem a
matéria-prima que está no subterrâneo.
Cegos de Tanta Luz
No mundo das organizações só se reconhece Zeus, onde o poder, a
assertividade, o marketing pessoal e o controle são altamente
favorecidos. Qualquer comportamento diferente desse arquétipo é
visto com estranheza, ou pior, como característica dos lunáticos.
No mundo de Zeus, tudo aquilo que não é visível não é digno de
existir.
Entendemos bem os aspectos iluminados da Criatividade. Sabemos
avaliar uma boa idéia, valorizamos a persuasão e a força de vontade
que a implementação de uma idéia demanda. Sobretudo, amamos a
certeza.
Não é de se estranhar que nossa cultura identifique o mundo de
Hades, por ser incerto, como o inferno. Zeus adora o controle e,
portanto, detesta tudo o que não é absolutamente preto ou branco e
mais ainda o imprevisto, o desconhecido.
O Trânsito entre os dois Mundos
Quero falar sobre Perséfone, também conhecida como a Guia do Mundo
Inconsciente, a deusa das estações do ano, dos ciclos e da
renovação. Essa é a deusa que nos ensina a transitar entre os dois
mundos citados acima.
O seu grande poder é o domínio de quando e como visitar o
inconsciente e como retomar o controle. Perséfone sabe buscar a
sabedoria que se encontra na mente profunda e trazê-la à tona.
Pensemos, por exemplo, nos instrumentos de Geração de Idéias. O
Brainstorming, um dos mais conhecidos, inicia com um livre fluxo de
idéias que não deve ser interrompido e posteriormente, as muitas
idéias resultantes são avaliadas.
O Pensamento Lateral convida a uma fuga temporária do pensamento
lógico. Sua prática consiste na passagem pelos caminhos do absurdo
antes de voltar para a trilha habitual. Devido a esses estágios, é
possível obter-se idéias novas e válidas.
Synetics, outra técnica, fala em "fazer o familiar ser estranho e o
estranho tornar-se familiar". Trata-se, portanto de transportar-se
de um problema, produto ou situação para um outro universo, para
posterior retorno.
O que esses instrumentos têm em comum? Todos alternam momentos de
fuga do pensamento tradicional com a volta à lógica e à avaliação
racional.
Não seriam estes instrumentos formas seguras para fazermos pequenos
mergulhos no Mundo de Hades? Controlado, permitido e com hora
marcada. Portanto aceito no Mundo de Zeus.
A sábia Perséfone, como uma mãe que segura os braços de seu filho
quando ele dá seus primeiros passos, criou formas seguras para
retirar sabedoria do inconsciente.
As boas idéias das empresas que utilizam instrumentos como os
citados são as provas vivas de que funcionam e, as empresas e
institutos especializados, não param de estudar a respeito.
O pesquisador inglês Michael Kirton, por exemplo, prega a existência
de uma criatividade incremental, (mais propícia às melhorias ou
redução de custos) e uma criatividade inovadora, que gera idéias que
rompem com os modelos anteriores
Com base nesses conceitos, O Center for Creative Leadership, nos EUA
e o Battelle's Institute, na Alemanha, realizaram diferentes estudos
sobre a eficácia de alguns instrumentos de estímulo à criatividade e
concluíram que os mais aplicados e aceitos nas empresas são os
adequados às melhorias e que, para a inovação, seria necessária a
utilização de metáforas, fantasias dirigidas e técnicas de
meditação.
Eu diria, portanto, que pequenos mergulhos no Mundo de Hades trazem
contribuições incrementais e que mergulhos maiores podem trazer
idéias realmente inovadoras.
Muitas boas idéias partem do "e se...", da livre especulação pelo
universo das possibilidades, mas o paradigma organizacional quer nos
prender à certeza dos bons resultados desde o início do processo.
É difícil conviver com a desordem e a insegurança de não saber aonde
vamos chegar. Também é trabalhoso abandonar crenças e procedimentos
que um dia nos foram úteis. Entretanto, desordem e revisão são
etapas obrigatórias da inovação, da mudança e da aprendizagem. Já
diziam os gregos.
Gisela Kassoy - Consultoria em Criatividade -
www.giselakassoy.com.br