Oh, Mundo Cãoporativo!
Por Jerônimo Mendes
17/11/2008
Faz exatamente 4 anos que eu tive a ousadia de publicar o meu
primeiro livro, intitulado Oh, Mundo Cãoporativo! Na época eu estava
muito emocionado e apreensivo em relação ao futuro, pois havia
encaminhado o original para diferentes editoras pouco antes de ser
demitido. Dois meses depois desse fatídico episódio, recebi a feliz
notícia de que a obra foi aprovada e seria lançada por uma editora
de expressão nacional.
Ser demitido é sempre uma experiência emocionante e não há como não
aprender alguma lição por conta disso. Você esbraveja, imagina que a
empresa pode voltar atrás e chamá-lo de volta, esconde da família,
chora, diz que tem alguns projetos em mente e, agora sim, vai fazer
o que gosta.
Na verdade, você acredita mesmo que o mundo vai acabar, pois aquele
orgulho bobo demora a admitir a derrota. Você queria mesmo era ficar
na empresa, com crachá, plano de saúde, mesa, cadeira e computador,
décimo terceiro salário, carro à disposição e PLR, independentemente
do sofrimento. Seu nome é trabalho.
No meu caso, a experiência valeu a pena e o episódio foi
determinante para abraçar uma nova carreira, algo que deveria
acontecer com a maioria das pessoas, afinal, a demissão só faz a
gente crescer. Tempos depois, eu me lembrei do Jack Welch,
ex-executivo da GE, com sua frase mais encantadora: até um pé no
traseiro empurra você para frente! Eis uma verdade incontestável.
Quatro anos depois, minha percepção a respeito do mundo corporativo
não mudou muito. Tenho acompanhado o drama e a trajetória de
centenas de profissionais em muitas empresas, universidades,
faculdades e também através das palestras e treinamentos, onde
procuro estimular o desabafo das pessoas mediante uma forma
diferente de repensar o seu papel no mundo. Infelizmente, é possível
contar nos dedos quantos estão realmente satisfeitos com o seu
emprego atual. E vejo que as empresas nunca investiram tanto em
treinamento e motivação.
O fato é que a carreira profissional de cada um depende
exclusivamente de si mesmo. A motivação para o trabalho também.
Salvo raríssimas exceções, ninguém está preocupado com a carreira do
vizinho nem a do colega de trabalho. Aliás, lembre-se de que eles
são seus concorrentes diretos e, se você vacilar, eles não terão a
menor dificuldade para assumir a sua vaga e absorver o seu trabalho,
afinal, amigo é para isso mesmo.
Todos os dias, o mundo cãoporativo convida-o a vestir a máscara da
hipocrisia, antes mesmo de você por o pé para fora de casa. Talvez
você não goste do chefe nem da empresa nem mesmo do que você faz,
mas, por uma questão de sobrevivência, aquela imensa raiva acaba
sendo disfarçada por um sorriso meio forçado enquanto você não
encontra alternativa mais promissora.
O termo cãoporativo é apenas uma referência bem humorada do mundo
profissional extremamente competitivo em que vivemos. Quando o livro
foi escrito, nunca imaginei que tomaria a dimensão que tomou. O fato
é que o tema continua atual e, apesar da realidade nua e crua das
organizações, as pessoas ainda têm que disfarçar a insatisfação e
continuar sorrindo, para o seu próprio bem.
Agora, tente imaginar a vida aos 80 anos, quando você estiver pronto
para refletir a respeito do seu legado. Talvez você tenha casado com
a pessoa errada, tenha feito o curso errado ou escolhido a profissão
errada. Aos 80, nossa capacidade de resiliência não será tão grande
quanto a gente gostaria e, assim, não haverá tempo para mais nada.
Pense nisso e seja feliz!
Jerônimo Mendes é Administrador, Consultor e Palestrante
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark) e Benditas Muletas
(Vozes)
Mestre em Organizações e Desenvolvimento Local pela UNIFAE