Inteligência ou Motivação o Que é Mais importante?
Por Ari Lima
12/05/2008
O gato tem habilidade e o cão tem atitude, qual dos dois
comportamentos seria mais útil em uma organização?
Existe uma grande questão a ser resolvida pelas organizações, em
relação aos recursos humanos: que tipo de profissional é mais útil
às empresas? Seria aquele profissional inteligente e habilidoso
tecnicamente, mas com uma atitude passiva, acomodada e sujeita as
oscilações de humor, ou aquele profissional que está sempre disposto
ao trabalho difícil, que tem iniciativa e motivação, que não reclama
das condições adversas, mas que tem pouca competência técnica? Esta
é uma questão importante para o desempenho organizacional e por isto
vamos analisá-la, pois nem sempre é possível a empresa conseguir
conciliar estes dois conjuntos de qualidades em um único
profissional.
Competências técnicas x competências comportamentais
Há alguns anos atrás, o principal critério na contratação de uma
profissional era sua competência técnica. Os recrutadores buscavam
identificar a experiência anterior do futuro empregado como condição
principal para sua contratação. Neste sentido, o currículo do
candidato conseguia espelhar de forma objetiva quem seria a pessoa
mais adequada para preencher a vaga, na medida em que este documento
mostrava sua experiência anterior bem como sua formação técnica.
Mas, a partir de meados da década de noventa, começaram a surgir
estudos analisando o desempenho dos profissionais e cruzando os
dados de suas habilidades técnicas com suas competências
comportamentais. Dois trabalhos realizados por importantes
pesquisadores americanos ilustram bem esta situação.
Em um estudo do professor John Kotter, da Universidade de Harvard,
apresentado no livro “As Novas Regras”, ele acompanhou um grupo de
115 alunos desta universidade a partir de sua formatura em 1974.
Comparou o desempenho profissional deles ao final de um período com
as notas obtidas pelos mesmos, ao concluírem o curso. O resultado,
ao contrario do que se esperava, mostrou que não havia ralação
positiva entre as notas obtidas e o sucesso pessoal e profissional
dos participantes ao final de 20 anos de acompanhamento. Ou seja, os
melhores alunos não foram os que alcançaram maior sucesso
profissional.
Num outro estudo, realizado pelo psicólogo Daniel Goleman, autor do
livro “A Inteligência Emocional”, (Editora Campus/Elsevier, 1995),
mostrou que 90% da diferença entre as pessoas que obtém grande
sucesso pessoal e profissional, e aquelas com desempenho apenas
mediano, se deve a fatores relacionados a competências
comportamentais, mais do que às habilidades aprendidas na escola.
Exemplos práticos
Estes dados apresentados anteriormente são fáceis de serem
comprovados na prática. Tomemos o exemplo hipotético de um
profissional com grande competência técnica e qualificação
acadêmica, mas que tenha baixa inteligência emocional. Este
profissional pode possuir todas as habilidades técnicas necessárias
ao desempenho das atividades de uma organização, no entanto sua
inteligência emocional deficiente dificulta sua performance, pois
sua atitude no dia a dia da empresa deixa a desejar.
Pessoas com baixa inteligência emocional têm dificuldade de
relacionamento e comunicação interpessoal, não conseguem trabalhar
em equipe de forma adequada, tem pouca motivação para realizar
tarefas rotineiras, entre outros comportamentos fundamentais para a
organização.
Comportamento Cão x Comportamento Gato
Para ilustrar melhor a situação vamos analisar dois comportamentos
bem distintos: o comportamento do Cão e o comportamento do Gato, e
em seguida compará-los com os comportamentos mais comuns dentro das
organizações.
O Gato
Comecemos analisando o gato. Como todos os felinos, o gato é um
animal habilidoso e inteligente. É um predador bastante eficaz,
planeja seu ataque minuciosamente e tem grande capacidade de focar
objetivos. No entanto, o gato é um animal acomodado. Sem atitude e
sem disposição para o esforço, o gato é atraído pelo descanso, pelo
conforto e, porque não dizer, pela preguiça.
Em geral o gato não se envolve com pessoas e sim com lugares. Ele
adora ficar horas se “lambendo” e curtindo o conforto de um lugar
agradável. Ele não ama necessariamente seu cliente, o dono, e sim a
casa deste. Mas, ao contrário do cão, não é capaz de mover nenhum
esforço para defender aquele lugar, caso seja ameaçado por algum
intruso.
Se o dono do gato chega em casa tarde da noite, num dia chuvoso ou
na hora em que ele está descansando, o gato é incapaz de levantar-se
para ir receber seu dono. Mas, mesmo nas ocasiões em que recebe o
dono, a atitude do gato não é de entusiasmo, mas apenas de
observação, de preguiça, de manha.
O Cão
Já o comportamento do cão é completamente diferente do gato. Este
animal não é tão habilidoso nem tão inteligente, mas o cão tem
sempre uma atitude pró-ativa, de motivação e entusiasmo com a vida.
Está sempre disposto a realizar tarefas, a sair com o dono a
qualquer hora do dia ou da noite, na chuva ou sol, no frio ou no
calor.
O cão recebe o seu dono com o mesmo entusiasmo todos os dias,
independente do humor deste. Mesmo quando recebe uma repreensão do
dono o cão não muda seu tratamento com ele. Ao contrario do gato,
que se for repreendido pelo dono ou maltratado de qualquer forma
afasta-se definitivamente da pessoa, o cão não guarda rancor ou
raiva de seu dono. Em geral ele perdoa eventuais tratamentos
inadequados.
O cão gosta mais do dono do que da casa do dono. Ele é capaz de dar
sua vida para defender as pessoas da família e também arrisca a vida
para defender a casa onde mora.
Profissional Cão x Profissional Gato
Baseado no que analisamos anteriormente fica claro que o
profissional Cão, ou seja, aquele profissional com comportamento
equivalente ao do cão dentro da organização é mais útil do que o
profissional Gato. Numa equipe de vendas o profissional Cão é aquele
que atende o cliente a qualquer hora do dia, mesmo quando o
expediente já acabou. Este profissional trata bem o cliente
independente da aparência, do humor ou do comportamento do freguês.
Não mede esforços para causar uma boa impressão e quando alguém
tenta denegrir a imagem da empresa, ele a defende com toda a
energia.
O profissional Cão é motivado, mesmo para as tarefas difíceis, tem
um grande censo de dever e, em geral, coloca os objetivos da empresa
acima de seus próprios interesses pessoais. Sua atitude é sempre
positiva, seu entusiasmo é contagiante, sua motivação é
impressionante.
Já o profissional Gato, é justamente o contrário. Coloca sempre seus
objetivos pessoais em primeiro lugar. É acomodado, é preguiçoso e é
incapaz de defender a organização em que trabalha. Este profissional
tem grande sensibilidade à forma como é tratado pelo cliente ou por
outros profissionais e leva tudo para o lado pessoal. Se for
criticado, normalmente reage mal e cria uma magoa que dificilmente
será superada.
Em geral as organizações deveriam ter um profissional Gato para cada
dez profissionais Cão. O profissional Gato é importante, na medida
em que tem grande habilidade e capacidade de planejamento e foco
para alcançar objetivos. No entanto, o profissional Cão é muito mais
útil, pois é ele quem irá fazer a máquina da empresa funcionar.
Infelizmente os profissionais Gatos são a maioria dos profissionais
nas organizações.
Que profissional é mais útil à organização?
Do ponto de vista de uma organização o profissional motivado, com
alto índice de inteligência emocional, torna-se mais útil, pois suas
deficiências técnicas poderão ser facilmente superadas. Sendo um
profissional motivado, a competência técnica passa a ser apenas uma
questão de tempo e disposição da empresa em investir na sua formação
técnica. Já o profissional desmotivado e com baixa inteligência
emocional, tem uma situação muito mais complexa e difícil de ser
superada.
Muitas vezes sua competência comportamental inadequada é fruto de
todo um contexto de vida, e a superação desta condição não é tão
simples, necessitando de um acompanhamento psicológico e
principalmente de uma mudança comportamental interior. Estas
mudanças em geral geram grande resistência por parte do próprio
profissional que tem dificuldade de assumir suas deficiências
comportamentais, tornando este processo muito mais difícil de ser
superado.
Portanto, podemos concluir que apesar da as habilidades técnicas e a
inteligência de um profissional serem importantes para as
organizações, sem dúvida uma atitude motivadora e pró-ativa é
fundamental para o contexto organizacional. São as pessoas com
iniciativa, motivadas e com grande energia pessoal que conseguem
realizar as tarefas essenciais no dia a dia da empresa.
Ari Lima é empresário, engenheiro, consultor em marketing pessoal e
gestão de carreiras e especialista em marketing e vendas. Desenvolve
treinamento em marketing pessoal e marketing jurídico para
profissionais liberais, empresas, escritórios e estudantes
universitários. Ministra cursos, seminários e palestras realçando o
lado prático e funcional do marketing e escreve artigos diariamente
para diversos sites e revistas. Além de uma sólida formação teórica,
possui 25 anos de experiência prática em gerenciamento e treinamento
de vendedores e de gerentes de vendas, bem como atendimento a
clientes.