As marcas e o comportamento do Consumidor
Por Olimpio Araujo Junior
02/04/2009
Para entender como as marcas e as grifes influenciam a decisão de
compra é essencial que o profissional de marketing compreenda o
comportamento do consumidor em relação a produtos e serviços.
Segundo Everardo Rocha, o consumo é um sistema simbólico que
articula coisas e seres humanos e, como tal, uma forma privilegiada
de ler o mundo que nos cerca. Através dele a cultura expressa
princípios, estilos de vida, ideais, categorias, identidades sociais
e projetos coletivos. Ele é um dos grandes inventores das
classificações sociais que regulam as visões de mundo e, talvez,
nenhum outro fenômeno espelhe com tanta adequação um certo espírito
do tempo - face definitiva de nossa época (ROCHA, 1985).
A partir da segunda metade do século XX, as mudanças sociais,
econômicas, políticas e tecnológicas passaram a ocorrer em grande
velocidade transformando a sociedade ocidental cada vez mais
orientada para o consumo. Neste contexto, compreender o
comportamento do consumidor passou a ser uma necessidade vital não
apenas para as empresas, mas para toda a organização orientada para
o mercado.
Para que as organizações possam entender as razões pelas quais somos
levados a comprar determinados produtos, especialmente objetos e
serviços supérfluos, desejar determinadas marcas e grifes,
freqüentar shoppings e passar boa parte de nosso tempo envolvidos em
experiências de consumo, é preciso descobrir o modelo mental que dá
origem às suas decisões de compra. Rocha sugere que para entender o
consumo é preciso entender como classificamos objetos e pessoas,
elaboramos semelhanças e diferenças. E assim ver que os motivos que
governam nossas escolhas entre lojas e shoppings, marcas e grifes,
estilos e gostos. (ROCHA, 2000)
Roger Blackwell (2005, p.22), afirma que o comportamento do
consumidor é uma ciência aplicada que se utiliza conhecimento de
economia, psicologia, antropologia, sociologia, estatística,
mercadologia e outras disciplinas. Essas referências servem de
suporte para o conhecimento da cultura, valores, crenças, desejos e
tudo aquilo que influencia na formação de sua personalidade e que,
conseqüentemente, influenciarão em seus processos de decisão de
compra.
Segundo Kotler (2000), o ponto de partida para conhecer e satisfazer
as necessidades dos clientes-alvo é tentar compreender o
comportamento do consumidor; estudar como pessoas, grupos e
organizações selecionam, compram, usam e descartam artigos,
serviços, idéias ou experiências para satisfazer suas necessidades e
desejos. Os consumidores ainda são influenciados por outras
variáveis muito importantes em seus comportamentos no ato da compra,
entre elas estão às classes sociais e as variáveis sociais.
Em entrevista para a Revista Veja, Everardo Rocha, antropólogo,
professor da PUC do Rio de Janeiro e pesquisador da Antropologia do
Consumo, afirmou que "Na hora da decisão de compra, os prazeres são
muito mais fortes que as necessidades, E isso independe da classe
social. Quem compra, compra para o outro, mesmo sem ter consciência
disso. O consumo é a forma mais óbvia de demonstrar inserção num
determinado meio, mesmo que ele esteja longe da realidade da
pessoa." (Revista Veja, 2002)
Neste sentido, a classe social é considerada uma das variáveis que
interfere no ato de consumo, e que não pode ser deixada de lado ao
procurar estudar a forma de cada consumidor agir diante de
determinadas escolhas, principalmente quando tratamos de marcas e
grifes. Os autores Kotler e Amstrong (1993, p.83), definem como
essenciais na classificação de uma classe social os fatores: renda,
ocupação, educação, riqueza e outras variáveis culturais. Para os
autores, estes fatores é que vão determinar preferências por
determinados produtos e comportamentos dentro destas classes,
inclusive determinando seus padrões de consumo.
Na opinião de Engel, Blackwell e Miniard (2000), não devemos
equiparar classe social e renda, pois não é apenas a o fator
financeiro que é determinante, muito embora haja uma correlação
entre renda e outras variáveis. Os autores destacam, por exemplo, o
caso de um gari, que pode ganhar mais do que um professor
assistente. Entretanto, seria atribuída ao professor uma classe
social mais alta que a do gari.
Segundo Rocha, na sociedade atual, os hábitos de consumo influenciam
nos relacionamentos, na vida amorosa e até na carreira, de acordo
com seu grau de refinamento. O autor ainda afirma que é essa
necessidade humana de projetar uma imagem acima de suas posses que
mantém o êxito das marcas exclusivas. (ROCHA, 1985). Observando as
classificações sociais, podemos verificar que há uma divisão entre
"ter" e "ser" alguma coisa dentro delas. E que na maioria das vezes,
são essas divisões sociais que influenciam no poder de compra dos
consumidores.
Outro fator importante de observação são as Variáveis Sociais. De
acordo com Stoner e Freeman (1999), elas são determinantes no
comportamento do consumidor. Estas variáveis de influência podem ser
classificadas como:
. Estilo de vida: As mudanças nos padrões de vida, como uniões
instáveis, pessoas morando sozinhas, têm gerado um maior número do
consumo, onde as pessoas procuram por produtos e serviços que lhes
proporcionem maior conforto e tranqüilidade.
. Valores sociais: Os valores sociais são determinantes nas escolhas
que as pessoas (consumidores) fazem na vida, como, por exemplo, um
determinado produto pode ter certo valor para uma pessoa e para
outra não.
. Demografia: O fator crescente da população leva a observar que os
padrões de consumo afetam o tamanho da oferta de mão-de-obra e da
localização no mercado de consumo.
Sendo assim, quem deseja entender o comportamento do consumidor não
pode deixar de considerar as interações sociais do ambiente social
no qual ele ocorre e no qual está inserido, pois é a sua
classificação social que, muitas vezes, vai determinar a sua decisão
de compra. "O comportamento às vezes é afetado mais por pressões do
ambiente social do que por atitudes pessoais" (ENGEL, 2000, p.255).
É o caso de quando as pessoas tomam decisões influenciadas por
outras e não por causa de seus desejos pessoais.
A grande gama de informações, o estresse, os fatores individuais
como estilo de vida, a personalidade, as atividades e opiniões de
cada um condicionam mudanças constantes no comportamento humano.
Este cenário altamente turbulento tem forçado as empresas a buscarem
constantemente um diferencial competitivo, a terem um cuidado maior
com qualidade e preço e satisfazer as necessidades dos seus
consumidores. Neste contexto, principalmente devido ao ciclo de vida
cada vez mais curto dos produtos, a marca exclusiva ou grife pode
ser um diferencial decisivo na escolha de compra.
Jean Baudrillard, em seu livro "A Sociedade do Consumo" afirma que o
consumidor diferencia-se dos demais consumidores e define sua
personalidade através da compra e na posse de objetos que possuam
determinados signos que construirão um "discurso" da personalidade
deste consumidor. Por isso, a felicidade só poderia se dar por meio
da distinção e da diferenciação, manifestando-se sempre por aspectos
visíveis, por signos materializados nos produtos. A lógica social do
consumo é a "lógica da produção e da manipulação dos significantes
sociais" (Baudrillard, 1995, p. 59). É esta lógica que demonstra a
importância do entendimento das marcas e das grifes no universo do
consumo.
Segundo American Marketing Association "uma marca é um nome, um
termo, um símbolo, um desenho - ou uma combinação desses elementos -
que deve identificar os bens ou serviços de uma empresa ou grupo de
empresas e diferenciá-los dos da concorrência". De acordo com Pinho
(1996, p.43) a marca passa a significar não apenas um produto ou
serviço, mas incorpora um conjunto de valores e atributos tangíveis
e intangíveis para o consumidor diferenciá-las daqueles que lhe são
similares.
Na década de 1960, David Ogilvy, publicitário e pesquisador,
realizou pesquisas de mercado que o levaram a conclusão de que as
marcas são percebidas pelos consumidores através de traços de
personalidade e características humanas. Eram relacionadas pelo
charme, modernidade, inteligência, simpatia, elegância, tradição,
inovação, e outras. Desta forma ele criou o termo brand personality
que descreve as características emocionais da marca que vão além da
funcionalidade atribuída ao produto (MARTINS, 1999, p. 19).
Desta forma, o apelo comercial dos produtos deixou de ser centrado
em sua funcionalidade e passou a receber diferenciação através de
características intangíveis como valores, sentimentos, idéias ou
afetos. Tal intangibilidade proporciona a verdadeira distinção entre
as marcas e seus produtos, constituindo elementos fundamentais para
a orientação do comportamento do consumidor. Conforme afirma Martins
(1999, p.20), "Toda marca forte tem uma essência emocional bem
definida que gera um estado de realização elevado no consumidor".
"O acelerado avanço tecnológico dos processos industriais de
desenvolvimento de produtos permite que muitos fabricantes ofereçam
ao mercado produtos com as mesmas especificações, o que elimina seus
diferenciais físicos" (PINHO, 1996). Os consumidores, por sua vez,
estão mais conscientes e exigentes. A cada dia um número maior de
competidores surge no mercado e, com tanta variedade de opções
oferecidas ao consumidor, o ciclo de vida dos produtos se reduz.
Tudo isso combinado leva, inevitavelmente a uma valorização da marca
como elemento exclusivo de diferenciação.
Segundo Martins (1999, p. 27), "As motivações de compra estão
relacionadas às necessidades, crenças e aos desejos individuais. A
preferência é despertada por imagens que estão no inconsciente
coletivo das pessoas." Isto demonstra que existe uma predisposição
natural das pessoas a dar maior aquilo que as agrada, seja com
relação ao nome interessante de um produto, seu design ou uma
campanha bonita. Por este motivo, elementos emocionais agregados ao
posicionamento, design, a publicidade ou aos eventos promocionais
que envolvam a marca, vão agregar ao produto uma percepção maior de
seu valor. Com isso, tanto o preço quanto a participação de mercado
tendem a crescer.
Desta forma, a marca tem como principal finalidade ajudar o
consumidor a identificar produtos e serviços e de transmitir aos
mesmos algum tipo de significado. Ao definirem suas marcas, as
empresas estimulam os consumidores a identificar os produtos e
serviços que desejam que sejam consumidos, acelerando seu processo
de decisão de compra.
Referências:
BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Rio de Janeiro, Elfos,
1995.
BLACKWELL, Roger D., MINIARD, Paul W. e ENGEL, James F.
Comportamento do Consumidor. São Paulo: Thomson Learning, 2005.
ENGEL, James F.; BLACKWELL, Roger D.; MINIARD, Paul. W.
Comportamento do Consumidor. 8. ed., Rio de Janeiro: JC, 2000.
KOTLER, Philip. Administração de Marketing. 10 Ed. São Paulo:
Pearson, 2000.
KOTLER, Philip.; ARMSTRONG, Gary. Princípios de Marketing. 5. ed.,
Rio de Janeiro: Prentice, 1993.
MARTINS, José. A natureza emocional da marca: Como encontrar a
imagem que fortalece sua marca. São Paulo: Negócio Editora, 1999.
PINHO, J. B. O poder das marcas. São Paulo: Summus, 1996.
ROCHA, Everardo. Magia e capitalismo. São Paulo, SP: Brasiliense,
1985.
ROCHA, Everardo P. Guimarães, Totem e consumo: um estudo
antropológico de anúncios publicitários. Rio de Janeiro: Revista
ALCEU (PUC-RIO) - v.1 - n.1 -pg 18 a 37 - jul/dez 2000.
STONER, James A. F.; FREEMAN, R. Eduard. Administração. 5. ed., Rio
de Janeiro: JC, 1999.
DÁMBROSIO, Daniela. Por que comprar é tão bom. "A ciência começa a
explicar de onde vem o prazer que gastar dinheiro proporciona."
Revista Veja Online - Edição Especial Investimento - Dezembro de
2002 -
http://veja.abril.com.br/especiais/investimento2002/consumo.html
OLIMPIO ARAUJO JUNIOR
Destaca-se em seu curriculum acadêmico a formação no MBA em
Comunicação Integrada de Marketing da Fundação Getulio Vargas, o MBA
em Gestão Comercial também da FGV além de especialização em Gestão
Ambiental para Pequenas e Médias Empresas pelo CEFET/PR e CDG da
Alemanha. É Bacharel e Licenciado e Geografia pela UEPG e foi aluno
especial do Mestrado em Educação da Universidade Estadual de Ponta
Grossa. Além de ter participado de dezenas de cursos de atualização
em Marketing, Vendas e áreas afins. Atualmente é Consultor em Gestão
de Marketing e Vendas (www.gestordemarketing.com.br),
Sócio-proprietário da e-BC Comunicação e Marketing (Empresa
responsável pelo marketing do Instituto Superior de Administração e
Economia/Fundação Getúlio Vargas - no Paraná entre 2006 a 2008), e
Sócio- Diretor da CWBS - Curitiba Business School.
Foi Diretor de Comunicação e Marketing da EcoTerra Brasil entre 2004
a 2006, e Diretor Comercial da Araujo Representações Comerciais
entre os anos de 1993 a 1997. No total, acumula profissionalmente
mais de 14 anos de atuação nas áreas de marketing e comercial, tendo
exercido cargos como Representante Comercial, Gerente de Vendas,
Coordenador Comercial, Gerente de Comunicação e Marketing, Diretor
de Comunicação e Marketing e Diretor Geral. Atua como palestrante e
ministra cursos para empresas e universidades desde 2000. Possui
cerca de 200 artigos publicados em jornais, revistas e sites de todo
o País.