Propaganda e Criatividade
Por Carlos Alberto de Faria
03/07/2008
Um dos aspectos da propaganda e publicidade que mais chama a atenção
é o uso da criatividade.
Nas agências de publicidade e propaganda o pessoal da criação,
usualmente, é tido como "maluco", ou eles próprios se travestem
desse papel-perfil, ajudando a reforçar a fama.
Mas quais as razões que conectam a área de propaganda e publicidade
à criatividade?
A razão básica é porque num mundo onde há múltiplos apelos,
convites, o público (você!) só dedica os minutos preciosos do
aluguel ou empréstimo da sua cabeça ao que chama a sua atenção.
A idéia básica da propaganda é chamar, capturar a sua atenção e, em
seguida, passar o recado. De preferência rapidamente, pois a atenção
é fugidia. Pura e simplesmente isso, só isso.
Só que para chamar a atenção fica sendo cada vez mais difícil pela
multiplicidade de apelos, pela "gritaria", auditiva e visual, a que
somos submetidos. E quanto mais "gritam", mais somos seletivos.
Aliás, esta é uma das razões pelas quais dizem que, em pouco tempo,
teremos empresas comprando a nossa atenção, pois a atenção torna-se
um dos bens mais procurados pelas empresas e mais raros de serem
encontrados.
A criatividade é uma excelente ferramenta para chamar a atenção.
O inesperado também. É aqui que entra o que se convencionou chamar
marketing de guerrilha, e que tem suas ações mais voltadas à
propaganda de guerrilha.
Uma discussão que eu não vou entrar é se as ações inesperadas são
mais um produto da criatividade, portanto abarcadas pelo mesmo
conceito. É bem provável que seja.
Essa busca da criatividade e do inesperado pode virar fim em si
própria e acabar virando a busca do imponderável, do imensurável.
Eu recomendo que você veja este vídeo, clicando aqui, que apresenta
uma campanha criativa e inesperada para uma "sex-shop", na Europa.
Primeiramente o exemplo apresentado é muito mais uma propaganda de
guerrilha do que marketing de guerrilha. A propaganda e a
publicidade são partes integrantes do marketing, mas que não podem
ser confundidas com o marketing, pois este é muito maior. Mas isto
frequentemente ocorre.
Eu gostaria de ter para analisar os resultados a curto, médio e
longo prazo desta ação, pois o resultado é o que vale.
Minhas dúvidas são as seguintes, com relação a esta propaganda
apresentada:
- qual o público-alvo a ser atingido?
- um fato "gritante" como este ajuda ou atrapalha na busca da
atenção?
- os resultados, quais foram os resultados para a loja que bancou a
propaganda?
- os resultados foram capturados pela loja que pagou a propaganda?
- houve aumento de vendas nas outras "sex-shop"?
Eu tenho dúvidas se este tipo de propaganda, que inevitavelmente
chamou a atenção, deu resultados em termos de acréscimo de vendas,
pois o público que associaria o "reclame" à loja de "sex-shop" seria
aquele que já a freqüenta. Mas isto só é um "achismo" meu,
precisaríamos de maiores dados da realidade para verificar que tipo
de público foi atraído, e se foi atraído...
A veiculação paralela provocada por este tipo de exposição - geração
de notícias e diz que diz - pode ter sido o maior ganho, caso tenham
conseguido associar a notícia ao "sex-shop" específico que o
patrocinou. Ou será que houve também aumento de vendas em outros
"sex-shops"?
Meu propósito é contrapor a idéia fixa de criatividade (inesperado)
versus a efetividade da campanha.
É um erro comum da propaganda encarar a criatividade pela
criatividade, a criatividade como fim.
Deixe-me pensar escrevendo, a título de exemplo, ficando em um
segmento esquecido para este tipo de negócio: o público da terceira
idade. Este público seria bom para o "sex-shop", creio eu, pois tem
os recursos financeiros mas não fazem parte do perfil de quem
comparece em "sex-shops" para comprar seus brinquedinhos... Olha só
o meu preconceito!
Se focarmos o público que já vai a "sex-shops", para fazer uma
pesquisa com eles, continuaremos com o mesmo mercado de pessoas mais
"sem-vergonha" de freqüentar um "sex-shop".
Qual é o percentual de vendas pessoais e virtuais de um "sex-shop"?
Uma simples sugestão alternativa de publicidade: uma foto de um
casal de cabelos brancos que denote, insinue carinhos íntimos e uma
frase, com este sentido, mas que pode e deve ser trabalhada:
"Junte brincadeira ao seu prazer.", ou
"Brinque com o seu prazer.", ou ainda
"Brinque com o seu amor"
Essa publicidade, provavelmente, não seria taxada de invasiva ou de
"imoral".
Se colocarmos essa propaganda no vidro traseiro dos ônibus, virada
para fora, mas em ônibus escolhidos que circulam em bairros de
classe A e B. Ou seja, seria uma publicidade vista pelo pessoal que
circula de carro e a pé nesses bairros.
O problema seria levar esse público à "sex-shop", pois nem todos se
sentiriam bem se vistos lá.
O acesso virtual, por parte deste público, facilitaria o contato.
Limitaria o mercado-alvo a quem tem e usa Internet, mas atenderia um
público que jamais freqüentaria um "sex-shop" pessoalmente.
E assim vamos caminhando, dando asas à imaginação, buscando em cada
enxadada encontrar meia dúzia de minhocas (sem quaisquer outros
sentidos!).
A idéia, que eu quero comparar, é que o ótimo vídeo apresentado
acima é mais ou menos como um grito, atinge um público heterogêneo,
faz barulho.
Nem sempre gritar é o melhor método, pois enfraquece a próxima mídia
que passará a ter que GRITAR mais alto para obter atenção. Nesta
guerra a surdez é que dominará a todos, e o que todos, marketeiros e
publicitários, não queremos.
A proposta apresentada da publicidade no vidro traseiro dos ônibus é
mais dirigida, é suave. Esta seria uma publicidade dirigida a um
segmento específico do mercado, o que nos remete ao artigo da semana
passada: segmentação de mercado, foco!
Qual é a melhor propaganda ou publicidade?
É aquela que apresenta resultados, e entre diversas publicidades só
a comparação de resultados obtidos poderia dizer qual a melhor.
Os resultados devem estar concentrados em quem paga a publicidade,
pois a dispersão de resultados entre os participantes do mesmo ramo
de atividade faz crescer também os concorrentes, o que não é,
certamente, o desejo de quem as paga.
Eu me lembro de uma publicidade veiculada na televisão, em São
Paulo, quando eu era jovem:
- uma mesa de tênis de mesa bem escura,
- os jogadores estão no escuro,
- só se vê a bolinha sendo atirada de lá para cá, de cá para lá,
- a câmara vai se aproximando,
- a bolinha começa a se definir,
- percebe-se que a simples bolinha é a Terra,
- entra a locução e diz algo como:
- o mundo é jogado pelos donos do poder. Para saber mais do mundo,
leia o "Estado de São Paulo"."
Eu adorei este anúncio, extremamente criativo, tanto que me lembro
dele até hoje. Só que eu não gostava da linha desse jornal, mas
passei a comprar mais a "Folha de São Paulo".
Concluindo: uma propaganda ou publicidade extremamente criativa, e
que não produza resultados concentrados no cliente que a paga, é
mais insignificante do que as propagandas não veiculadas, pois estas
não "gastaram" tanto o tempo de veiculação como o tempo de atenção
dos possíveis clientes.
A propaganda e a publicidade precisam, preferencialmente, focar a
sua vantagem competitiva, o seu diferencial, aquilo que só você
oferece para o seu público-alvo, aquilo que só a sua oferta oferece.
Mostrar a necessidade que os clientes têm do que você faz ou fazer
publicidade do seu ramo de atividade, pode também, e ferequentemente
é isso o que acontece, incentivam a compra também nos seus
concorrentes, pois, a princípio, você se coloca como uma opção, mais
uma opção. Esta atividade é bem próxima de chover no molhado.
Se você precisa falar com o seu público-alvo, lembre-se que o
principal é capturar a atenção do seu cliente potencial e deixar o
recado. E o recado deve ser o que só você oferece, aquilo que
distigue sua oferta da oferta dos concorrentes.
A sua propaganda também precisa ser segmentada, na medida em que
você tem ofertas diferentes a públicos-alvos diferentes.
Carlos Alberto de Faria é sócio diretor da Merkatus - Fonte:
Merkatus