Absenteísmo tem Cura?
Por Luís Sérgio Lico
11/11/2008
- Alô? Vocês têm palestras para casos de
absenteísmo?
- Pode passar maiores informações?
Trabalhamos sob demanda dos clientes...
- Ótimo! Vou querer uma palestra.
Rápida. No máximo 1 hora. Vapt-vupt.
- Esta questão deve ser bem pensada.
Precisamos ter cuidado na avaliação...
- Olha! Vamos ser mais assertivos?
Quanto custa? Tem desconto? O coffee
break e hotel estão no meu centro de
custo. Será sexta-feira à noite. Todo
mundo convocado. Sem extras. Manda hoje?
- Veja bem. O caso não pode ser tratado
desta maneira...
- Concordo. Precisa ter efeito imediato.
Tratamento de choque. O diretor pediu
para resolver o problema das faltas e
atrasos e disse para chamar um
consultor. Estou cotando com fulano e
beltrano. Você sabe, né? Três
orçamentos, o menor leva e sem essa de
“valor agregado”.
- Mas... Precisamos analisar a situação:
Como está o clima? As ferramentas? Os
processos? Não é só chegar lá e dizer a
todos: Parem de se desmotivar. Cheguem
no horário ou então créu...
- Ai, ai, ai! Já vi que liguei para o
lugar errado, não é? Quanta dificuldade!
- Ok. Ok. Como está a situação?
- Prá mim são um bando de encostados.
Vivem com atestado na mão. Cheios de
desculpas: metrô, greve, sistema,
chefia, família. Quem manda ter uma
penca de filhos? Ninguém está
comprometido. Falta vergonha na cara.
Reclamam de tudo, só pensam em feriado.
Um inferno. Entendeu?
- Acho que sim. Desde quando está
acontecendo?
- Faz uns seis meses. Logo depois que
vim para cá. Houve umas mudanças e
acabamos com a farra do pessoal. Agora
estamos enxutos e sem zonas de conforto.
Você acha que uma hora é suficiente?
- Se eu falar a verdade, você não me
contrata!
O que temos aí não é um diálogo surreal.
Eu atendo duas ou três solicitações
destas por semana. Trata-se da aquisição
de “vacinas” contra os males das
organizações. Nada mais natural, numa
economia de mercado, onde os
compartimentos são estanques e as
métricas definem normas e procedimentos
irredutíveis. Nossa cultura ocidental
tem uma maneira peculiar de lidar com as
coisas: precisamos de chancelas, de
carimbos e rótulos.
Como tudo está engendrado numa “cadeia
de produtividade”, o pensamento indutivo
supõe que cada um tem seu lugar e serve
para algo. Se não for professor, não
pode ensinar; se não for especialista,
não pode opinar. E a recíproca é
verdadeira: geólogos não consertam
sapatos e maridos não lavam a louça.
Admirável mundo novo!
A lista continua: se faltar uma peça,
tem que buscar no almoxarifado (se for
Just-in-time, danou-se). Se o caso é
serviços, tem que chamar alguém do ramo.
Quando o problema é na equipe ligam para
o consultor. Enfim, para tudo tem uma
voz “autorizada” a falar e que traz a
solução para os problemas que nenhum
outro membro da sociedade está
habilitado a resolver. Naturalmente,
este processo é até lógico, o duro é a
maneira em que estão dispostas as coisas
e forma de aquisição.
Em algum lugar do passado as pessoas se
preocupavam com uma visão global e
orgânica, hoje se busca o core business.
Explico: como tudo é produto, quando
aparece uma necessidade a ser resolvida,
se vai “ao mercado” buscar o pacote de
salsinha, quer dizer, solução. Se o caso
é absenteísmo, presenteísmo ou um “gap”
de competências, as pessoas procuram um
preparado, uma técnica, uma mistura
semipronta que resolva a questão. Basta
fazer uma cotação e comparar. Simples.
Estratégico.
Aí começa o non sense. Uma gelatina está
pronta, após adicionar água. Será que
uma equipe maltratada e mal orientada
consegue ser motivada pelo showman mais
caro numa sexta à noite, sabendo que na
segunda vão encontrar a mesma cadeira
quebrada e o chefe carrancudo? Vamos lá,
meus Campeões! Motivem-se! O Futuro está
em suas Mãos! Vocês são Vencedores...
Putz!
Ninguém merece. Se há uma cura para os
males das organizações, estes
procedimentos devem primeiro,
interpretar relações. Segundo: devem
mapear ferramentas, processos e
interações. Finalmente, precisam estar
alinhados com as estratégias que
realmente trazem vantagem competitiva.
Entre elas a racionalidade das análises,
clima, contexto e ações produtivas.
Neste meio tempo, atender às
necessidades das pessoas a partir de
políticas claras e ações sustentáveis.
A cura dos variados estados patológicos
organizacionais envolve uma técnica
diagnóstica, 360º, que desmonte os
falsos indicadores e potencialize os
aspectos positivos das situações. Sempre
haverá os irresponsáveis. Mas, via de
regra, ninguém motivado se atrasa com
freqüência. E, mesmo se o problema for
esse, o que impede a compensação com um
banco de horas?
É preciso criatividade para viver numa
cidade onde o colapso dos transportes é
uma realidade. Faltas médicas ou
entrevistas de emprego para fugir do
ambiente insalubre? Para o primeiro,
composição e acordo; isto resultará em
gratidão e, com isso aumento da
fidelidade à empresa. O outro é
indicador da saúde e competitividade:
poucos fogem de um lugar promissor ou
onde a convivência é saudável.
Desta maneira a perfeita sintonia e
integração entre missão da empresa e
missão pessoal é o que mantém os
desafios superáveis. Uma assessoria
externa pouco pode fazer se não contar
com o apoio da vontade realizadora dos
profissionais que nos contratam.
Resultados sustentáveis vêm de
estratégias consistentes e devem alinhar
três fatores-chave: Retorno, Inovação e
Sustentabilidade.
O primeiro é o óbvio: organizações
necessitam lucrar. O segundo permite
obter resultados com melhores custos e
isto quer dizer sobrevivência. O
terceiro significa produzir sem
destruir; liderar sem coerção ou
desrespeito e recompensar sempre o
mérito. Quem quer ouvir aquele que clama
no deserto? Somente os sábios se
inclinam diante das propostas éticas.
Estes geralmente ganham mais.
A palestra é um tônico revigorante, uma
medicação para despertar a
sensibilidade, fortalecer o sentimento
de auto-realização e cooptar o
engajamento dos melhores valores.
Funciona muito bem para aqueles que
estão buscando destacar-se na
organização. Mas não é uma panacéia. Se
o caso é grave, é preciso tratar, além
das pessoas, as lideranças, as políticas
e os valores.
Todo um modelo precisa ser analisado e
suas resistências mapeadas, com auto
reflexão. Senão nada funciona e ainda
nos traz surpresas. É como a mãe que
leva o filho ao psicólogo e reclama que
ele não obedece. Na maioria dos casos,
quem precisa de tratamento é o adulto e
não a criança. Ela só responde aos
estímulos de seu ambiente. Quais
estímulos da organização afetam nossa
rotina?
Luís Sérgio Lico é Palestrante e
Conselheiro Organizacional. Mestre em
Filosofia e Especialista em Gestão do
Comportamento. Autor dos Livros: O
Profissional Invisível e Fator Humano.
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